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Preto e Branco

Poderia ver o mundo a preto e branco. Poderia olhar para a sociedade e ver a cor da pele, dos olhos ou do cabelo. Poderia apenas ver o bem e o mal; o certo e o errado... 
Seria mais fácil do que ver todas as cores das quais o mundo se pinta. Seria mais fácil do que ver as milhares de flutuações que separam o certo do errado.
Às vezes, num exercício inglório, tento ver só a preto e o branco. Por não ser capaz, olho a sociedade e os seres humanos como seres únicos e diferenciados. Não consigo olhar para um grupo e vê-lo homogéneo, porque ele nunca é homogéneo, mesmo que queiramos enfiar todos os elementos num mesmo saco.
Os pretos, os brancos, os ciganos, os índios, os asiáticos e os amarelos às bolinhas azuis não se resumem à cor, à raça; ou a lá o que nos faz termos aparências tão diferentes. 
Tal como os grupos profissionais. Os policias, os juízes, os advogados, os médicos ou os professores não são apenas as profissões que ministram. São seres com "bagagens" distintas, personalidades distintas... 
Cada um de nós tem uma história que nos moldou. Se somos preconceituosos, intolerantes e discriminamos quem não se parece connosco, isso deve-se àquilo que vivemos, àquilo que nos ensinaram e ao que temos, ou não temos, cá dentro. Enquanto enfiarmos as pessoas em sacos rotulados, seremos sempre daltónicos e incapazes de discernir a palete de tons que adorna a sociedade. Por isso, os extremos me afligem tanto, pela ignorância e a cegueira que lhes vêm agarradas.

O caso da morte de George Floyd prova que os extremos vêem mal. George Floyd foi vítima de homicídio, é certo, mas ainda não tenho a certeza se foi vítima de racismo. Nada me diz que se ele fosse de outra cor, estando na mesma situação, não seria morto da mesma forma. As imagens não são suficientemente explicitas para me confirmarem isso. Não sou ingénua ao ponto de pensar que não existe racismo nos EUA. Sei que há, como infelizmente ainda há um pouco por todo o mundo. E é claro que o censuro e que luto para que deixe de existir.

George Floyd foi detido pela polícia por suspeitas de ter cometido um crime (e já tinha algum histórico nesta área), o que faz dele um potencial criminoso. É óbvio que não será por isso que deixa de ser uma vítima, no entanto, faz-me "espécie" ter sido considerado um mártir e um herói a nível mundial. Para mim, ele continua a ser somente um potencial criminoso que foi vítima de um homicídio frio e desumano (se é que há outros tipos de homicídios...). E, claro, lamento a sua morte que, segundo me pareceu, pelo que consegui ver nas imagens, foi o resultado de excesso de violência e, essencialmente, de uma completa falta de empatia por parte do polícia que tinha a obrigação de preservar a sua vida. Porque os polícias servem para nos defenderem, não para nos atacarem e mesmo quando nos prendem, têm a difícil tarefa de fazer todos os possíveis para nos levarem vivos até à prisão.

Tal como não discrimino ninguém pela cor da pele, também não discrimino pela profissão. Como não acho que todos os brancos são bons ou maus ou que todos os pretos são criminosos ou respeitadores da lei; também não acho que todos os polícias são violentos, racistas, ou até potenciais homicidas. Como igualmente não os vejo como santos. 

A cor da pele (ou a profissão) não me diz nada sobre as pessoas, só depois de as conhecer consigo formar uma opinião. As palavras, as atitudes e o que sobressai do carácter são os factores que me ajudam a formar uma opinião sobre determinada pessoa. E às vezes, não chegam... Às vezes, formo uma opinião errada e vejo-me obrigada a mudá-la. E mudo-a.
De facto, seria tudo bem mais fácil se só tivéssemos o preto e o branco. Simplificaria os processos e tornaria o ser humano um ser mais básico e fácil de entender.
No entanto, a Humanidade é muito mais complexa. 

 

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