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Grito

Há meses que não escrevo uma palavra. Quase como se estivesse de abstinência ou a fazer uma cura de desintoxicação.

Às vezes tenho ressacas. Dói-me o corpo e os dedos, sinto a cabeça cheia de palavras e frases, numa urgência de saírem por mim afora. O peito aperta-se-me e sinto-me prestes a explodir. Mas, depois, nada. Segue-se um vazio imenso, como se estivesse prestes a gritar: enchesse o peito de ar, abrisse a boca e dela apenas saísse silêncio. Um grito mudo. Um grito que nunca chega a sê-lo. E como que para me inebriar, afundo-me nos livros dos outros, nas palavras dos outros. À espera de ali encontrar as minhas. As minhas palavras que sucumbem ao vazio, que se calam.

Tenho saciado a fome de palavras, devorando livros, uns atrás dos outros. Como o alcoólico que bebe água a fingir que é vinho ou o fumador que masca pastilhas para distrair o desejo do cigarro, eu alimento-me de livros, enganando a vontade de escrever.

Caminho para a recuperação devagarinho. Este texto pode ser o inicio.

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No Meu Colo

É incrível que quando vens de manhã deitar-te a meu lado, o abraço que me dás continue a ser com aqueles braços pequeninos de há anos. O estado semi-adormecido em que me encontro não distingue os anos que já passaram. Sinto as tuas mãos pequeninas a apertarem instintivamente o meu braço, como se ainda não conseguissem controlar a força ou o movimento; como se, ainda, tivessem os dedos gordinhos e minúsculos.  Abro os olhos e estás grande, mas a expressão do teu rosto é igual à do bebé que me cabia no colo. De certa forma, continuas a caber-me no colo...  O meu peito abraça-te, não os braços. E com o peito podemos abraçar o mundo. Cabe-nos tudo cá dentro. E tu, mesmo quando não estás, estarás sempre aqui dentro. No meu peito. E no meu colo. De certa forma, continuarás sempre a caber-me no colo. 

O Tuga é Fixe!

Sim, o tuga é fixe. E bondoso. Tão bondoso que até quando tira a selfie em frente ao velho monumento, o faz com cara de anjo e dentes arreganhados. Não interessa o calhau que lhe serve de fundo, interessa apenas o sorriso repleto de bondade. Resplandecente de bondade.  A benevolência é tal que está sempre pronto a dar o pedaço de pão ao pobre, a fazer o voluntariadozinho junto dos coitadinhos, a salvar o cão que lhe matou o filho, a levar o refugiado para casa... Coração imenso, grandioso. Só tem um bocadito de medo de votar diferente nas urnas, não vá um estranho para o poder e lhe troque as voltas. E mude alguma coisa no país que o faça deixar de saber onde está o coitadinho, como se pode desviar do pobre, se cortaram as unhas ao cão ou quem é o refugiado. E tem medo de exigir que os governos governem e que a igualdade se torne realidade. (É que estas coisas acabadas em "ade" sempre foram tão perigosas... Assim como a liberdade que, ao fim de quarenta anos, ainda não