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Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva.
Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada.

Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo.
Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas.
Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando.
E voltei a sonhar sem comprimidos.

Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que ele vá desaparecer a qualquer momento. Fico centrada na sua presença, a desfrutá-lo, a ouvi-lo ainda bem, sem Parkinson, e o coração enche-se-me de amor. São sonhos ternos que quero repetir ou prolongar quando acordo. Geralmente não consigo, mas fico com uma boa sensação no peito que me acompanha ao longo do dia.
Sinto que, com as sua visitas aos meus sonhos, me protege da dor da sua ausência e que a sua vida será eterna sempre que eu o lembrar ou sonhar.

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