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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme sossegado. Mexo-me e faço barulhinhos na esperança que acorde. Mas não acorda e a Preciosa faz "shiiiuuuu", o que me obriga a fechar os olhos e a fingir dormir.

Volto sempre ao infantário. Entro e saio e por momentos sou pequenina outra vez. Sou pequenina nos buraquinhos dos estores, a fingir dormir ou a tentar acordar o colega do lado. Sou pequenina na sensação de aprisionamento e na vontade de fugir.
Para o tempo passar depressa, imagino histórias do outro lado da janela. Brincadeiras de criança e jogos com outros miúdos. Do outro lado dos estores, através dos buraquinhos de luz, sou livre, salto e brinco sem amarras. Deste lado, sou apenas mais uma prisioneira no sono obrigatório. Por isso, preencho a hora da sesta com histórias que me soltem da aflição de estar em clausura. Imagino um mundo paralelo, que me faça feliz e ao mesmo tempo me embale. Tal como hoje quando invento histórias para adormecer... Não conto carneiros, conto histórias. Já não há as duas filas de estores aos buraquinhos como barreira entre mim e a liberdade, nem o colega do lado para acordar ou a Preciosa e a Isabel a cochicharem junto à porta. Hoje só conto histórias a mim mesma como fazia aos quatro anos. E o sono acaba por vir como naquela idade: Apenas no fim da sesta.

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