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"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença ou a minha imaginação a voar longe, mas um corpo que já bebeu raios de todos os tipos e frequências pode-se dar a estes pruridos. Ou não?

Vou para uma segunda sala de espera, esta mais pequena e cheia de senhoras com batas iguais à minha. Estamos todas de seios à larga por debaixo das batas e aconchegamos o peito com os braços como que a protegê-los do que nos espera.

A minha vizinha de gabinete é chamada. Segue a "operacional" até à sala de raio X. Demora-se e a minha vizinha de cadeira é chamada de seguida.

Na televisão passa a notícia da descoberta de um novo órgão que poderá estar relacionado com a disseminação de alguns tipos de cancros a outras partes do corpo. Chamam-lhe interstício.
Olhamos todas para televisão, atentas às novidades sobre a doença que predomina no hospital.

A minha vizinha de cadeira regressa do exame. É a minha vez.
Aprisionam-me as mamas na máquina que as radiografa. Primeiro de frente, depois de lado. Tumba, mais quatro radiações de uma assentada. Visto a bata e volto para a sala de espera.

A "operacional" grita para uma colega que a doutora ainda tem três mamas. Imagino a doutora, na sua bata de médica com três saliências no peito. Sorrio. Olho em volta e sou a única a sorrir. Mais ninguém imaginou tal coisa, ou nem sequer ouviu a "operacional". Sinto-as absortas nos seus pensamentos. Todas elas devem estar focadas nas suas próprias mamas e as da médica não lhes interessam. 

A "operacional" fala, lá longe, em biopsias e o sorriso foge-me da cara. 
A minha vizinha de gabinete retorna à sala, vestida e de mãos trémulas. 
Terá sido ela a da biopsia de que se falou? Foi com certeza. O procedimento médico está-lhe estampado no rosto e nos gestos nervosos. 
Hesito em perguntar se está tudo bem, mas parece-me que aquele momento tem de ser de silêncio e deixo-a a assimilar as suas dúvidas e medos. 

Faz parte do processo. A lenta consciencialização da nossa mortalidade é o primeiro impacto e requer silêncio para que possamos ouvir o que nos dizem os pensamentos. Precisamos deste encontro a sós com as ideias de vida e morte, de passado e futuro. Porque o presente ausenta-se. Rejeitamo-lo. Não o queremos ali porque nos magoa talvez mais do que a ideia de um futuro obscuro.

Os olhos da minha vizinha de gabinete estão agora mais brilhantes, mas não há lágrima que os abandone. Talvez estejam retidas pelas dúvidas que a invadem...

Fico atenta, mas distante. Pode precisar de uma palavra de conforto se desabar. 
Não desaba. Recebe o exame da "operacional", que enfia no saco de exames médicos que segura com as mãos pouco firmes. Torce os dedos como que a querer soltá-los das mãos. Se fossem eles os culpados do estremecimento, já os teria arrancado à força.

Sou chamada para a ecografia mamária e perco a minha vizinha de gabinete de vista.

Quando volto para me ir vestir, ela já não está lá. Foi-se embora no silêncio dos seus medos.

Afasto o pensamento dela. Faço isto muitas vezes que ali vou. É uma forma de fingir que a dor não enche aquele hospital. É como se me pudesse distanciar daquilo tudo, porque sem essa distância, o meu instinto seria acarinhar todas aquelas pessoas. Dar-lhes o que ainda resta de bom em mim. Se o fizesse, esvaziar-me-ia em dois tempos, porque é tanto o que elas precisam que eu nunca teria o suficiente. Assim, cada familiar, cada amigo, cada médico ou enfermeiro dá um pouco do que todos precisamos naquele lugar. É a forma que o hospital arranjou para sobreviver à dor que transborda.
Também já recebi tanto de toda aquela gente... Bocadinho a bocadinho, fui preenchendo os espaços, vazios pelo cancro, de esperança e de alguma força para me levantar sempre que me sentia no chão. A ideia de finitude arrasta-nos por um chão áspero de pedregulhos e espinhos. Mais do que tudo, o cancro leva-nos de rojo até à linha do abismo. Até àquele lugar onde percebemos como tudo é minúsculo se comparado com a palavra fim. Percebemos que tudo se suporta, tudo se ultrapassa, se continuarmos vivos. E o medo da morte esvai-se. Parece um contrassenso , mas não é, porque damos de caras com ela. Ela está ali, à nossa frente, à espera que tropecemos nos nossos medos para nos pôr as mãos em cima e nos levar. Talvez seja o facto de a vermos tão perto que faz com que não a tememos mais. Ao perto, ela não é mais do que uma contrariedade da vida como outra qualquer. Deixa de ser o papão que pintámos toda a vida. Não há imagem da mulher vestida de negro com uma foice. Há só vazio, escuridão e fim. O ponto final da história. O fecho do nosso ciclo. E depois nada.

Passo pela casa-de-banho antes de deixar o hospital. Vejo a minha vizinha de gabinete a conversar com uma desconhecida. Diz-lhe: "É assim, mas tem que ser." Percebo que acabou de exteriorizar o que a atormentava e que iria sair dali mais leve. A desconhecida despede-se com a frase da praxe do IPO: "Bom dia e as melhoras!".

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