Avançar para o conteúdo principal

Marcadores #5

Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou:
- Como te sentes hoje?
- Mais ou menos. Agora, não tenho dores.
- Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa?
- Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar.
- Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer.
Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela.
- Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada.
- Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho:
- Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr?
Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não estavam a aceitá-la muito bem por ser nova e inexperiente, do estresse que se vivia no escritório onde tudo parecia sempre atrasado, da quantidade de coisas que tinha de fazer por dia. Contava tudo isso forçando a imagem da mãe de outrora, saudável e vigorosa, bela e luzidia para que ela não notasse a expressão afectada que carregava no interior.
            Cármen tentou passar da posição de deitada para sentada. Arrastou o corpo fraco pelo colchão até as costas encontrarem a parede que fazia de cabeceira da cama. Ana sabia que não a podia ajudar. Aquele momento era a voz da sua autonomia, por isso, segurava a vontade de a agarrar e puxar para cima e, com um sorriso terno de incentivo nos lábios, gritava silenciosamente “força. Isso. Está quase”.
            Finalmente sentada, Cármen começou num murmúrio:
            - Queria pedir-te um favor… 
            - Calma, mãe, descansa um bocadinho. Já falas.
            Aguardou uns minutos enquanto descansava do movimento e que o arfar da respiração acalmasse, e recomeçou pausadamente:
            - Tenho uma amiga, de quem não te deves lembrar, pois eras muito pequenina, que precisa da tua ajuda.
            - Da minha ajuda? Como? – estranhou a filha.
            - Chama-se Gabrielle e está presa.
            - Presa? Porquê?
            Cármen tirou os tubos do oxigénio do nariz, alargou a parte que lhe circundava as orelhas para aliviar a pressão e esforçou-se por encher o pequeno peito de ar. Lentamente contou que a amiga tinha sido presa por ter sido acusada do homicídio de um tio.
            - Homicídio?! Oh, mãe, não sei se serei capaz de defender um homicídio! É isso que pedes, não é? – exclamou, Ana, em pânico.
            - Sim, e claro que és capaz! Tu és uma óptima advogada!
            - Mas exerço há tão pouco tempo… Não sei se serei suficientemente competente.
            - Não tenho a mais pequena dúvida de que és, filha! – disse Cármen com uma nova força na voz que lhe veio directamente do peito. – Apesar de não acreditares muito no que te vou dizer, ou de te sentires insegura, tu és uma mulheraça cheia de força e capacidades. Sei que és a pessoa certa para defender Gabrielle!
            Ana fitou a parede atrás da mãe e tentou digerir o que lhe acabara de dizer. Não estava tão segura quanto a mãe das suas capacidades. Na verdade, não estava nada segura de ser capaz de defender um caso de homicídio. Nunca lhe tinha calhado nada parecido. Roubo, furto, agressões, já tinha defendido alguns casos, mas homicídio… Homicídio nunca. E se a amiga da mãe fosse culpada? Como poderia dar-lhe essa notícia? Se fosse culpada iria ser capaz de a defender da mesma forma? As dúvidas pulsavam-lhe na cabeça como se fossem uma enxaqueca.

            - Não tenho tanta certeza de ser capaz, mãe – murmurou.

Mensagens populares deste blogue

Facebook lovers

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva …

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…

Voo da Paixão

Voámos alto, em noites gélidas que tornámos escaldantes. Voámos tão alto, que pude ver as estrelas e a Lua.
Mas o voo não é interminável e temos que pousar. Pousar para reabastecer, pousar para descansar e para voltar a voar... de novo... uma vez mais...
Quantas vezes o fizemos? Quantas vezes precisaremos de o voltar a fazer?

Se a paixão nos faz voar, o amor faz-nos pousar.