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Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou:
- Como te sentes hoje?
- Mais ou menos. Agora, não tenho dores.
- Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa?
- Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar.
- Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer.
Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela.
- Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada.
- Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho:
- Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr?
Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não estavam a aceitá-la muito bem por ser nova e inexperiente, do estresse que se vivia no escritório onde tudo parecia sempre atrasado, da quantidade de coisas que tinha de fazer por dia. Contava tudo isso forçando a imagem da mãe de outrora, saudável e vigorosa, bela e luzidia para que ela não notasse a expressão afectada que carregava no interior.
            Cármen tentou passar da posição de deitada para sentada. Arrastou o corpo fraco pelo colchão até as costas encontrarem a parede que fazia de cabeceira da cama. Ana sabia que não a podia ajudar. Aquele momento era a voz da sua autonomia, por isso, segurava a vontade de a agarrar e puxar para cima e, com um sorriso terno de incentivo nos lábios, gritava silenciosamente “força. Isso. Está quase”.
            Finalmente sentada, Cármen começou num murmúrio:
            - Queria pedir-te um favor… 
            - Calma, mãe, descansa um bocadinho. Já falas.
            Aguardou uns minutos enquanto descansava do movimento e que o arfar da respiração acalmasse, e recomeçou pausadamente:
            - Tenho uma amiga, de quem não te deves lembrar, pois eras muito pequenina, que precisa da tua ajuda.
            - Da minha ajuda? Como? – estranhou a filha.
            - Chama-se Gabrielle e está presa.
            - Presa? Porquê?
            Cármen tirou os tubos do oxigénio do nariz, alargou a parte que lhe circundava as orelhas para aliviar a pressão e esforçou-se por encher o pequeno peito de ar. Lentamente contou que a amiga tinha sido presa por ter sido acusada do homicídio de um tio.
            - Homicídio?! Oh, mãe, não sei se serei capaz de defender um homicídio! É isso que pedes, não é? – exclamou, Ana, em pânico.
            - Sim, e claro que és capaz! Tu és uma óptima advogada!
            - Mas exerço há tão pouco tempo… Não sei se serei suficientemente competente.
            - Não tenho a mais pequena dúvida de que és, filha! – disse Cármen com uma nova força na voz que lhe veio directamente do peito. – Apesar de não acreditares muito no que te vou dizer, ou de te sentires insegura, tu és uma mulheraça cheia de força e capacidades. Sei que és a pessoa certa para defender Gabrielle!
            Ana fitou a parede atrás da mãe e tentou digerir o que lhe acabara de dizer. Não estava tão segura quanto a mãe das suas capacidades. Na verdade, não estava nada segura de ser capaz de defender um caso de homicídio. Nunca lhe tinha calhado nada parecido. Roubo, furto, agressões, já tinha defendido alguns casos, mas homicídio… Homicídio nunca. E se a amiga da mãe fosse culpada? Como poderia dar-lhe essa notícia? Se fosse culpada iria ser capaz de a defender da mesma forma? As dúvidas pulsavam-lhe na cabeça como se fossem uma enxaqueca.

            - Não tenho tanta certeza de ser capaz, mãe – murmurou.

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