Avançar para o conteúdo principal

Marcadores #4

Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim.
É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou. 
- Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora.
- Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do livro.
- Está a gostar? Deve achar-me uma bêbeda parva que se atira ao primeiro escritor dos livros que lê que encontra.
Tentava forçar as pétalas do marcador a descolarem-se do caule de metal.
- Não fui o primeiro.
- Como? – perguntou franzindo a testa.
- Não fui o primeiro estranho que encontrou. O empregado do bar foi o primeiro.
Esboçou um leve sorriso.
- Pois... mas ele não escreve livros.
- Como sabe?
- Não sei, imagino que não. 
Agarrou o silêncio com as duas mãos e não o largou. Fiquei a olhá-la, à espera que lhe voltasse a coragem para falar.
Havia qualquer coisa nela que me prendia... Talvez fosse a vontade de me ver através de quem lê os meus livros, ou talvez me quisesse encontrar na minha escrita que ela leu, ou a ela, ou talvez fosse o cheiro a pele morena e gel de banho…
Podia ir-me embora e deixá-la ali. Já fiz isso antes, não seria novidade. Podia levá-la a casa, deitá-la na cama para que recuperasse da bebedeira e caminhar sossegado até a minha casa, ou abandonar-me depois num bar qualquer entre cervejas e amendoins. Depois podia voltar à minha vida como se nunca a tivesse encontrado. Podia tentar seduzi-la, aproveitar-me do trejeito que as caipirinhas lhe provocavam no rosto, e na mente, para a levar para a cama. Podia tudo isso, mas não me apetecia. Preferi continuar imóvel à espera que continuasse a conversa. Queria tanto que continuasse a conversa que todas as outras hipóteses me pareciam completamente inconcebíveis.
Interrompeu, finalmente, o silêncio e perguntou:
- Porque gosta de estar comigo?
- A sua companhia é agradável. E estou a sentir-me útil... – disse sem sentir grande convicção de que aquilo fosse toda a verdade.
- Útil? Acha que está a fazer um bem à sociedade em estar aqui comigo? Acha-se um bom-samaritano?
- Não, Ana, de bom-samaritano não tenho nada. Sou mais da classe dos crápulas. Raramente sou útil a alguém, mas hoje estou a sentir-me útil. E a gostar. Precisa de desabafar e eu preciso de a ouvir. Continue, por favor – senti que a verdade estava mais na parte final da minha conversa do que na primeira, mas acrescentar algo mais àquele discurso não me pareceu uma opção correcta.
- Vai escrever um livro sobre mim?
- Quer que o faça?
- Não sei…
- Quem sabe... Conforme a sua história. – respondi desejando que a desenvolvesse.
Ficou embrenhada em pensamentos que se vislumbravam nos movimentos dos olhos algo nervosos e completamente ébrios. Olhava o lugar de onde o sol já houvera saído para mergulhar no mar manso lá ao fundo. Olhava aquele lugar como se houvesse alguma coisa para ver, como se quisesse recuperar a visão que perdera enquanto era dia. Já havia escurecido e o máximo que poderia estar a ver eram os próprios pensamentos.

Esperei. Esperei mais um pouco até a música, agora de Miles Davis, mudar. Passados dois bons minutos de estarmos com “Blue in Green” a encher o princípio daquela noite quente, voltou a falar para me contar o que a atormentava.

Mensagens populares deste blogue

Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva.
Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada.

Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo.
Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas.
Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando.
E voltei a sonhar sem comprimidos.

Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que ele vá…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…