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Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim.
É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou. 
- Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora.
- Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do livro.
- Está a gostar? Deve achar-me uma bêbeda parva que se atira ao primeiro escritor dos livros que lê que encontra.
Tentava forçar as pétalas do marcador a descolarem-se do caule de metal.
- Não fui o primeiro.
- Como? – perguntou franzindo a testa.
- Não fui o primeiro estranho que encontrou. O empregado do bar foi o primeiro.
Esboçou um leve sorriso.
- Pois... mas ele não escreve livros.
- Como sabe?
- Não sei, imagino que não. 
Agarrou o silêncio com as duas mãos e não o largou. Fiquei a olhá-la, à espera que lhe voltasse a coragem para falar.
Havia qualquer coisa nela que me prendia... Talvez fosse a vontade de me ver através de quem lê os meus livros, ou talvez me quisesse encontrar na minha escrita que ela leu, ou a ela, ou talvez fosse o cheiro a pele morena e gel de banho…
Podia ir-me embora e deixá-la ali. Já fiz isso antes, não seria novidade. Podia levá-la a casa, deitá-la na cama para que recuperasse da bebedeira e caminhar sossegado até a minha casa, ou abandonar-me depois num bar qualquer entre cervejas e amendoins. Depois podia voltar à minha vida como se nunca a tivesse encontrado. Podia tentar seduzi-la, aproveitar-me do trejeito que as caipirinhas lhe provocavam no rosto, e na mente, para a levar para a cama. Podia tudo isso, mas não me apetecia. Preferi continuar imóvel à espera que continuasse a conversa. Queria tanto que continuasse a conversa que todas as outras hipóteses me pareciam completamente inconcebíveis.
Interrompeu, finalmente, o silêncio e perguntou:
- Porque gosta de estar comigo?
- A sua companhia é agradável. E estou a sentir-me útil... – disse sem sentir grande convicção de que aquilo fosse toda a verdade.
- Útil? Acha que está a fazer um bem à sociedade em estar aqui comigo? Acha-se um bom-samaritano?
- Não, Ana, de bom-samaritano não tenho nada. Sou mais da classe dos crápulas. Raramente sou útil a alguém, mas hoje estou a sentir-me útil. E a gostar. Precisa de desabafar e eu preciso de a ouvir. Continue, por favor – senti que a verdade estava mais na parte final da minha conversa do que na primeira, mas acrescentar algo mais àquele discurso não me pareceu uma opção correcta.
- Vai escrever um livro sobre mim?
- Quer que o faça?
- Não sei…
- Quem sabe... Conforme a sua história. – respondi desejando que a desenvolvesse.
Ficou embrenhada em pensamentos que se vislumbravam nos movimentos dos olhos algo nervosos e completamente ébrios. Olhava o lugar de onde o sol já houvera saído para mergulhar no mar manso lá ao fundo. Olhava aquele lugar como se houvesse alguma coisa para ver, como se quisesse recuperar a visão que perdera enquanto era dia. Já havia escurecido e o máximo que poderia estar a ver eram os próprios pensamentos.

Esperei. Esperei mais um pouco até a música, agora de Miles Davis, mudar. Passados dois bons minutos de estarmos com “Blue in Green” a encher o princípio daquela noite quente, voltou a falar para me contar o que a atormentava.

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O meu pai

Lembro-me de, aos 15 anos, ter amigos com pais com idades entre os 50/60 anos. Olhava para eles e pensava "fogo, os pais deles são tão velhos".
O meu pai tinha 36 anos quando eu tinha 15 e os dos meus amigos tinham idades próximas da dele agora. O meu pai descobriu esta coisa da parentalidade aos 21. Quando fiz 21, ele só tinha 41, quase 42.

Hoje, faz 62 anos e sou eu que tenho 41. A diferença de idades continua a mesma, mas sinto-me mais próxima dele. Mais próxima em idade e mais próxima fisicamente.

Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Discutimos que nos fartamos, porque adoramos uma boa discussão. Um diz preto e o outro diz branco. Raramente, chegamos ao cinzento, porque somos igualmente casmurros.

O meu pai esteve longe muito tempo. Tempo demais. Até nas razões do que nos distanciou discordamos. Porém, concordamos que devíamos ter estado sempre mais perto.

Em pequena, era incapaz de lhe perdoar a distância. Aceitava-a simplesmente, mas com uma mágoa maior do que eu.

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…

Método científico

A propósito do vídeo abaixo que vi no Facebook, lembrei-me de vos contar duas ou três situações que aconteceram comigo na minha última ida ao Amoreiras, relacionadas com o nível de educação a que lá costumo assistir.


Antes, faço uma pequena introdução para que melhor entendam onde quero chegar.
Costumo ir ao cinema a centros comerciais, pois, além de já quase não haver cinemas só cinemas, vou atrás do filme que me apetece ver e, por isso, não tenho um sítio fixo e ando quase aleatoriamente por esses antros de consumo, Lisboa fora, no encalço do lugar mais barato para ver determinado filme. Restam-me, por vezes, locais não tão baratos, mas que são os únicos onde o filme passa ou são os que têm o horário que me dá mais jeito.


No domingo passado, calhou ir ao Amoreiras. Já lá tínhamos ido noutras ocasiões e, confesso-vos, não é um dos locais que goste especialmente de ir ou estar. Aquilo é muito mal frequentado. Dá a ideia que é um local que atrai gente mal educada...
Quem conhece este centr…

Espaços vagos

O luto não se faz só pelas pessoas que nos faltam e que se vão pelo fim da vida. Faz-se também e amiúde por aquilo que vamos perdendo: a paz, a realização pessoal, os sítios em que nos sentimos bem e que temos de abandonar, os ambientes, os cheiros. Perdemos bocados de nós à medida que vamos ganhando outros ou transmutando os que tínhamos.

Há uma necessidade de luto não só na morte, mas na vida. É preciso o silêncio, a auto-comiseração, a dor profunda que nos permite emergir renovados e abertos ao que vem a seguir. Se não deixamos ir aquilo que nos sai da pele e da alma, dificilmente conseguimos arranjar espaço para aquilo que se segue. Somos limitados em espaço, temos pouco terreno para muitas coisas e enchemos o que temos com aquilo que nos preenche de verdade.
Ao contrário do que nos parece, a perda faz-nos bem. Faz-nos evoluir, torna-nos mais fortes e permite-nos valorizar tanto o que se foi, quanto o que virá. Só os espaços vagos se podem ocupar e se não os ocupamos com aquilo qu…