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          - A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar.
Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.
            Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continha as cartas. Ana dirigiu-se-lhe e trouxe-a para junto da mãe. Pousou-lha no colo com a delicadeza com que se senta uma criança pequena.
- Que esteve Gabrielle a fazer na Alemanha? – quis saber Ana.
- Esteve a trabalhar numa coudelaria de cavalos Hanoverianos em Verden.
- O que é que ela faz? É cavaleira?
- Sim, é uma óptima cavaleira, das melhores que já vi. Conheci Gabrielle na escola de equitação, quando ainda sonhava fazer dos cavalos a minha vida.
Ana sabia que a mãe, em tempos, andou pelo mundo dos cavalos, mas conhecia poucas pessoas desse período. Nunca tinha ouvido falar de Gabrielle e sentia-se estranha por isso. Não que tivesse de saber tudo sobre Cármen, mas Gabrielle parecia ser alguém importante para a mãe, já que esta fazia tanta questão que Ana a defendesse. Sentia-se um pouco ofendida por a mãe ainda não lhe ter contado nada sobre esta amiga.
- Se ela é inocente, por que a prenderam? – perguntou.
- Porque é a principal suspeita. Não sei por que motivo, mas é. Terás de consultar o processo. Só sei o que li nos jornais, que não é muito, nem de fiar.
Ana sentia-se perdida. Um homicídio em que a principal suspeita era a amiga da mãe que ela devia defender? Seria um caso difícil tanto pela gravidade do crime em causa, quanto pela proximidade familiar entre a arguida e a vítima.
Passeou o olhar pelo quarto como que à procura das respostas às imensas dúvidas que a assaltavam. Esperava vê-las escritas nas paredes e, como estas não se encontravam por ali, acabou por estacionar os olhos no livro que a mãe tinha na mesinha-de-cabeceira. Crimes Exemplares de Max Aub. Estava ali desde que Cármen caíra na cama, com o marcador de livros que Ana lhe tinha trazido de Amesterdão a marcar sempre a mesma página. Cármen não o lera mais desde que as dores nos ossos começaram a ser tão insuportáveis que o peso de um livro se poderiam assemelhar a carregar uma montanha nos braços. A capacidade de ler era das coisas que mais lhe custara perder para a doença. Ler e sair à rua sozinha.
Uma vez Ana sugeriu a medo ler para Cármen, mas a mãe nem a deixou acabar a frase. As incapacidades quando verbalizadas causavam-lhe maior sofrimento, pelo que Cármen as evitava a todo o custo impedindo os outros de sequer falarem delas. Ter sido sempre uma mulher de rua, de ar, de sol, de chuva, de nuvens, de terra, de árvores e flores, de animais, de livros e de muitas coisas para fazer. contribuía para esta necessidade de distanciamento daquilo que a doença já não a deixava fazer. Tomar consciência de que não era capaz de alguma tarefa, por mais corriqueira que fosse, corroía-lhe o amor-próprio.
Cármen, apesar de ser uma mulher dos livros e quase citadina, também era uma mulher do campo e dos cavalos. Dos cavalos que nunca tinham saído completamente da sua vida. Tinha fotos dos animais espalhadas pela casa. Tinha arreios, suadouros, polainas e esporins guardados num armário. Tudo ainda com cheiro a cavalo. Ana lembrava-se de ver a mãe, com as portas do armário escancaradas, a inspirar o cheiro a cabedal e suor de cavalo dos arreios. Nesses momentos, via que um sentimento de felicidade a espreitava, pela forma como abria as narinas para deixar que o ar, inundado pelo cheiro cavalar, lhe entrasse até aos pulmões, até estes mesmos pulmões que agora reclamavam a mais pequena brisa que Cármen tentasse inspirar.
Desviou o olhar do livro para a mãe. Cármen já dormia. Tirou-lhe a caixa das cartas da mão, puxou o lençol e o edredão para cima, aconchegou-a e beijou-lhe a face. 
Foi à cozinha descongelar o jantar. Tirou o tupperware do congelador e enfiou-o no microondas. Enquanto não o ouviu apitar, arranjou o tabuleiro com o prato, o copo, o guardanapo e os talheres.
Plim!
     Abriu a porta do microondas e entornou a comida no prato, colocando-o de seguida no frigorífico. Pousou o tabuleiro arranjado na bancada mais perto do frigorífico. Voltou ao quarto para espreitar a mãe que continuava a dormir, pegou na caixa das cartas que enfiou dentro da mala e saiu em bicos dos pés.

(continua)

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