Avançar para o conteúdo principal

Marcadores #3

O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti.
Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor.
- É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir?
- Sempre. Quase todos os dias no verão.
- Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados.
- Não tenho jeito para escrever cartas – disse, esboçando um sorriso cúmplice.
- Eu também não gosto da parte das cartas. Gosto mais dos tribunais. De dar coças a gente estúpida. Tenho jeito para isso. Sou má como as cobras! – soltou uma gargalhada. Era a primeira vez que a via rir de verdade. Tinha uma bela gargalhada, larga. O sinal ficava-lhe quase no sítio de onde a bochecha tinha fugido.
- Que lhes faz? À gente estúpida…
- Faço-a contar-me os seus piores pecados. Mas depois não lhe dou a absolvição, tento mandá-la para a cadeia - riu de novo – Mas a outra gente safo-a da cadeia... Quando os crimes são acidentes de percurso... Quando a vida a obriga a cometer injustiças e delitos, safo-a. Ou tento safá-la...
Fixou os olhos nos meus e sorriu.
- Gosto de si, sabe? – disse, com os olhos castanho-mel a quererem  apoderar-se dos meus -  Do que escreve – corrigiu.
- Nunca li uma carta sua, por isso não sei se gosto do que escreve. Mas pode sempre enviar-me uma... – respondi numa mistura entre um tom de brincadeira e um de sedução. A mistura caiu-me mal. Senti-me subitamente ridículo e tentei contrapor dando um tom mais sério às minhas palavras - Sabe, estava aqui a tentar descobrir o que faria uma menina como a Ana ler um livro meu?
- A dor. Aquela que viu nos meus olhos. Talvez...  
A música era agora “Summertime” ainda pelo trompete de Chet Baker.
Com a mesma destreza com que saltara de assunto em assunto durante a conversa, a menina dos cachos selvagens agarrou-me o braço com força e pousou a cabeça sobre a mão que me apertava. Fiquei sem saber o que fazer. Afagar-lhe os caracóis? Pousar a cabeça sobre a dela? Ou soltar-me do aperto?


(continua)

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…