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Marcadores #2


- Bem me parecia – ficou à espera de qualquer coisa que não aconteceu e perguntou – Posso sentar-me?
- Claro – respondi.
Ajeitou a cadeira e sentou-se. Traçou a perna que se delineou por debaixo do vestido lilás. Um joelho fino e pontiagudo parecia querer rasgar o lilás do tecido.
O empregado trouxe-lhe mais uma caipirinha, a quarta. Acendi um cigarro enquanto ela pagava e agradecia ao empregado pela quarta vez.
- Também já fumei. Deixei há pouco tempo. Custa, mas conseguimos – disse, olhando-me nos olhos.
- Eu não vou deixar. Já decidi. Vou fumar sempre.
- Porque estava tão triste quando escreveu este livro? – perguntou, mudando de assunto repentinamente e pousando o livro em cima da mesa. Como não respondi logo, continuou – Desculpe a ousadia de lhe perguntar isto, mas este livro é muito mais forte do que os outros dois. Esta pergunta não me sai da cabeça quando o leio – revirou os olhos numa expressão engraçada comandada pelas caipirinhas.
Só agora, de perto, reparei no sinal que tinha no canto direito da boca. Ficava-lhe bem. Era bonito e redondinho e dava-lhe um ar jovial, maroto até.
- Estava numa fase má da minha vida, nessa altura...
- Já não está?
- Não, pelo menos tão má. Gosta do livro?
- Gosto. Também estou numa fase má da minha vida. Na pior, acho eu... – fez uma pausa – Dá-me um cigarro?
Mexia a caipirinha com as palhinhas. Mexia-a como se quisesse varrer o fundo do copo.
- Não deixou de fumar?
- Sim, tem razão. Desculpe.
- As caipirinhas não apagam a sua dor – atrevi-me a dizer com um arrependimento que me chegou de imediato.
- Não? Como sabe que sinto dor?
- Vejo-a nos seus olhos.
- Vê? Além de escritor também é vidente? – afasta o cabelo para trás dos ombros.
- Não sou vidente, mas a idade vai-nos dando uma melhor percepção dos sentimentos dos outros. Conseguimos ler melhor as expressões. A idade tem destas coisas... às vezes, destas coisas boas... – fiz uma pausa para que as caipirinhas lhe dessem tempo e espaço para me entender – Enquanto escrevia esse livro, bebia uísque. Muito uísque. Agora, bebo cervejas, duas ou três por dia. Sinto-me melhor agora.
- Não costumo beber isto tudo todos os dias. Umas vezes bebo mais, outras menos... – disse quase a falar só para si.
- O que lhe quero dizer é que é uma ilusão pensarmos que o alcóol apaga a dor. Não apaga. Adormece talvez. Mas a dor volta sempre quando o álcool não está.
- Volta, não volta? – ficou a olhar o infinito na capa do livro pousado na mesa – Gosto dos seus livros, sabe? Gosto da acutilância da escrita. Escreve fervorosamente, não escreve? Com raiva?
- É assim que entende o que escrevo? Talvez “raiva” seja a palavra certa... – escrevi raiva no meu caderninho.
- Aponta tudo aí, Sr. Pedro? – inclinou o queixo na direcção do meu caderno. Aquele “senhor Pedro” caiu-me mal.
- Quase tudo. Não me chame senhor, por favor. Já sabe o meu nome, mas eu não sei o seu. Quer dizer-mo?
- Ana. Ana Peres – fitou o mesmo infinito na capa do livro e voltou a mexer o gelo e o açúcar da bebida.
- Muito prazer, Ana – apertei-lhe a mão gelada. Tanto calor e a mão gelada. Talvez o gelo da bebida que segurava lhe tivesse gelado a mão…Talvez o gelo que a queimava por dentro lhe chegasse à mão…
- O prazer é meu, Pedro.
Inclinei a cabeça numa espécie de vénia. Tenho pouco jeito para cavalheirismos e a vénia quase me caiu tão mal quanto o “senhor Pedro” dela.
- O que faz, Ana? Também escreve?
- Sim, escrevo cartas, imensas cartas, e perguntas e alegações – sorriu e ficou por momentos à espera da minha reacção - Sou advogada - rematou, revirando os olhos naquele trejeito engraçado das caipirinhas.
- Também andei em Direito, mas não gosto. Aliás, detesto. Foi mais um erro... Desisti no segundo ano.
- O que faz além de escrever?
- Escrevo. Quando não escrevo no papel, escrevo em pensamento. Neste preciso momento estou a escrever.
- E o que está a escrever agora?

- Esta história.

(continua)

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