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- Bem me parecia – ficou à espera de qualquer coisa que não aconteceu e perguntou – Posso sentar-me?
- Claro – respondi.
Ajeitou a cadeira e sentou-se. Traçou a perna que se delineou por debaixo do vestido lilás. Um joelho fino e pontiagudo parecia querer rasgar o lilás do tecido.
O empregado trouxe-lhe mais uma caipirinha, a quarta. Acendi um cigarro enquanto ela pagava e agradecia ao empregado pela quarta vez.
- Também já fumei. Deixei há pouco tempo. Custa, mas conseguimos – disse, olhando-me nos olhos.
- Eu não vou deixar. Já decidi. Vou fumar sempre.
- Porque estava tão triste quando escreveu este livro? – perguntou, mudando de assunto repentinamente e pousando o livro em cima da mesa. Como não respondi logo, continuou – Desculpe a ousadia de lhe perguntar isto, mas este livro é muito mais forte do que os outros dois. Esta pergunta não me sai da cabeça quando o leio – revirou os olhos numa expressão engraçada comandada pelas caipirinhas.
Só agora, de perto, reparei no sinal que tinha no canto direito da boca. Ficava-lhe bem. Era bonito e redondinho e dava-lhe um ar jovial, maroto até.
- Estava numa fase má da minha vida, nessa altura...
- Já não está?
- Não, pelo menos tão má. Gosta do livro?
- Gosto. Também estou numa fase má da minha vida. Na pior, acho eu... – fez uma pausa – Dá-me um cigarro?
Mexia a caipirinha com as palhinhas. Mexia-a como se quisesse varrer o fundo do copo.
- Não deixou de fumar?
- Sim, tem razão. Desculpe.
- As caipirinhas não apagam a sua dor – atrevi-me a dizer com um arrependimento que me chegou de imediato.
- Não? Como sabe que sinto dor?
- Vejo-a nos seus olhos.
- Vê? Além de escritor também é vidente? – afasta o cabelo para trás dos ombros.
- Não sou vidente, mas a idade vai-nos dando uma melhor percepção dos sentimentos dos outros. Conseguimos ler melhor as expressões. A idade tem destas coisas... às vezes, destas coisas boas... – fiz uma pausa para que as caipirinhas lhe dessem tempo e espaço para me entender – Enquanto escrevia esse livro, bebia uísque. Muito uísque. Agora, bebo cervejas, duas ou três por dia. Sinto-me melhor agora.
- Não costumo beber isto tudo todos os dias. Umas vezes bebo mais, outras menos... – disse quase a falar só para si.
- O que lhe quero dizer é que é uma ilusão pensarmos que o alcóol apaga a dor. Não apaga. Adormece talvez. Mas a dor volta sempre quando o álcool não está.
- Volta, não volta? – ficou a olhar o infinito na capa do livro pousado na mesa – Gosto dos seus livros, sabe? Gosto da acutilância da escrita. Escreve fervorosamente, não escreve? Com raiva?
- É assim que entende o que escrevo? Talvez “raiva” seja a palavra certa... – escrevi raiva no meu caderninho.
- Aponta tudo aí, Sr. Pedro? – inclinou o queixo na direcção do meu caderno. Aquele “senhor Pedro” caiu-me mal.
- Quase tudo. Não me chame senhor, por favor. Já sabe o meu nome, mas eu não sei o seu. Quer dizer-mo?
- Ana. Ana Peres – fitou o mesmo infinito na capa do livro e voltou a mexer o gelo e o açúcar da bebida.
- Muito prazer, Ana – apertei-lhe a mão gelada. Tanto calor e a mão gelada. Talvez o gelo da bebida que segurava lhe tivesse gelado a mão…Talvez o gelo que a queimava por dentro lhe chegasse à mão…
- O prazer é meu, Pedro.
Inclinei a cabeça numa espécie de vénia. Tenho pouco jeito para cavalheirismos e a vénia quase me caiu tão mal quanto o “senhor Pedro” dela.
- O que faz, Ana? Também escreve?
- Sim, escrevo cartas, imensas cartas, e perguntas e alegações – sorriu e ficou por momentos à espera da minha reacção - Sou advogada - rematou, revirando os olhos naquele trejeito engraçado das caipirinhas.
- Também andei em Direito, mas não gosto. Aliás, detesto. Foi mais um erro... Desisti no segundo ano.
- O que faz além de escrever?
- Escrevo. Quando não escrevo no papel, escrevo em pensamento. Neste preciso momento estou a escrever.
- E o que está a escrever agora?

- Esta história.

(continua)

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O meu pai

Lembro-me de, aos 15 anos, ter amigos com pais com idades entre os 50/60 anos. Olhava para eles e pensava "fogo, os pais deles são tão velhos".
O meu pai tinha 36 anos quando eu tinha 15 e os dos meus amigos tinham idades próximas da dele agora. O meu pai descobriu esta coisa da parentalidade aos 21. Quando fiz 21, ele só tinha 41, quase 42.

Hoje, faz 62 anos e sou eu que tenho 41. A diferença de idades continua a mesma, mas sinto-me mais próxima dele. Mais próxima em idade e mais próxima fisicamente.

Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Discutimos que nos fartamos, porque adoramos uma boa discussão. Um diz preto e o outro diz branco. Raramente, chegamos ao cinzento, porque somos igualmente casmurros.

O meu pai esteve longe muito tempo. Tempo demais. Até nas razões do que nos distanciou discordamos. Porém, concordamos que devíamos ter estado sempre mais perto.

Em pequena, era incapaz de lhe perdoar a distância. Aceitava-a simplesmente, mas com uma mágoa maior do que eu.

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Ler e escrever

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Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
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Método científico

A propósito do vídeo abaixo que vi no Facebook, lembrei-me de vos contar duas ou três situações que aconteceram comigo na minha última ida ao Amoreiras, relacionadas com o nível de educação a que lá costumo assistir.


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No domingo passado, calhou ir ao Amoreiras. Já lá tínhamos ido noutras ocasiões e, confesso-vos, não é um dos locais que goste especialmente de ir ou estar. Aquilo é muito mal frequentado. Dá a ideia que é um local que atrai gente mal educada...
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Espaços vagos

O luto não se faz só pelas pessoas que nos faltam e que se vão pelo fim da vida. Faz-se também e amiúde por aquilo que vamos perdendo: a paz, a realização pessoal, os sítios em que nos sentimos bem e que temos de abandonar, os ambientes, os cheiros. Perdemos bocados de nós à medida que vamos ganhando outros ou transmutando os que tínhamos.

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Ao contrário do que nos parece, a perda faz-nos bem. Faz-nos evoluir, torna-nos mais fortes e permite-nos valorizar tanto o que se foi, quanto o que virá. Só os espaços vagos se podem ocupar e se não os ocupamos com aquilo qu…