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Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo.
Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida.
 Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sentou-se numa mesa à sombra, sozinha, e pediu uma caipirinha. Por momentos pensei se não seria brasileira, mas rápido desisti da ideia, já que a caipirinha é das bebidas preferidas das mulheres portuguesas que me têm passado pelas mãos. Deve ser portuguesa, pensei, tem ar de portuguesa, apesar do cabelo castanho, comprido, encaracolado, meio selvagem. Tentei descobrir-lhe a idade, uns trinta e cinco anos no máximo. Talvez menos.
Não consegui tirar os olhos daqueles caracóis que pareciam ter vida própria, fazendo-lhe desenhos na silhueta. Usava um vestido, também ele comprido, mas ao contrário dos cabelos, liso. E lilás. Tirou os óculos escuros e guardou-os na mala, de onde saiu um livro. Tentei ler o título, mas a mão dela era trémula e não consegui. A capa não me era estranha, conheço aquela capa, as cores. Parou a mão quando viu o empregado dirigir-se à única mesa ocupada, além da minha que acabara de ocupar. O sol refletiu na frente do livro e ele ficou agora virado para mim. É o meu livro, o meu último livro!
A caipirinha chegou e ela levantou os olhos para a receber das mãos do rapaz. Pagou e agradeceu. Os olhos eram castanhos-mel, pude ver. Olhos jovens, mas doridos. Havia uma dor imensa naqueles olhos… Podia ser confundida com preocupação, mas não era. Era dor.
O meu livro nas mãos dela impediu-me de deixar de a observar, o livro e os caracóis. Queria ler-lhe as expressões, perceber o que sentia enquanto sorvia as minhas palavras.
Tinha-o escrito numa altura em que o alcóol alimentava os meus dias. Andava meio alucinado. Depois de o publicar, nunca mais lhe peguei. Acontece-me sempre isso. Escrevo, escrevo, revejo o que escrevi, publico o trabalho de meses, às vezes anos, e depois nunca mais lhe toco. Rejeito tudo aquilo. Já não quero mais, já não gosto. Custa-me falar sobre livros antigos, quando me questionam sobre eles, já não me lembro da história, nem do que queria contar. Ponho tudo para trás das costas como a um acontecimento doloroso. Risco aquele pedaço da minha vida e sigo em frente, para o próximo.
Sei que o livro que ela lia naquele dia, tinha sido um mau momento. Era duro, perverso, intenso e sarcástico. Na verdade, como quase toda a minha vida. Sei isso e pouco mais.
Tentei perceber porque interessava a uma jovem de trinta e poucos anos um romance tão ríspido como aquele. E ela lia-o como se o respirasse. Como se tivesse sede de amargura.
Os copos das caipirinhas iam enchendo a mesa. Não comia nada, nem amendoins salgados. Bebia e lia. Bebia o livro e lia as caipirinhas. Nunca olhava o mar. Parecia ter medo de o olhar. Talvez receasse gostar de contemplar a beleza da paisagem e perder a amargura da minha história. Ficava-se entre o livro e a bebida. Parecia não ver mais nada.
Contei três copos na mesa, pouco antes de me encher de coragem para a abordar. Estava quase a levantar-me, quando toquei no isqueiro que caiu ao chão. Inclinei-me para o apanhar e quando levantei a cabeça para me certificar de que ela ainda ali estava, percorro os olhos pelo vestido lilás até aos caracóis castanhos. Estava diante de mim, tão perto que lhe senti o cheiro a pele morena e gel de banho.
- O senhor é este, não é? – aponta para a minha fotografia na contracapa.
- Sou – respondo.

(continua)

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