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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2017

O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Espaços vagos

O luto não se faz só pelas pessoas que nos faltam e que se vão pelo fim da vida. Faz-se também e amiúde por aquilo que vamos perdendo: a paz, a realização pessoal, os sítios em que nos sentimos bem e que temos de abandonar, os ambientes, os cheiros. Perdemos bocados de nós à medida que vamos ganhando outros ou transmutando os que tínhamos.

Há uma necessidade de luto não só na morte, mas na vida. É preciso o silêncio, a auto-comiseração, a dor profunda que nos permite emergir renovados e abertos ao que vem a seguir. Se não deixamos ir aquilo que nos sai da pele e da alma, dificilmente conseguimos arranjar espaço para aquilo que se segue. Somos limitados em espaço, temos pouco terreno para muitas coisas e enchemos o que temos com aquilo que nos preenche de verdade.
Ao contrário do que nos parece, a perda faz-nos bem. Faz-nos evoluir, torna-nos mais fortes e permite-nos valorizar tanto o que se foi, quanto o que virá. Só os espaços vagos se podem ocupar e se não os ocupamos com aquilo qu…

Boas notas

O meu filho está habituado a ter boas notas sem se esforçar muito. A estudar praticamente nada, costuma tirar oitentas e noventas por cento nos testes. Nunca andei atrás dele para estudar, porque nunca foi preciso. Ele sempre geriu o tempo de estudo como bem entendeu e a minha função (e a do pai) foi sempre só lembrar se tinha algum teste no dia seguinte. Ele foi-se habituando a isto e nós também, por isso nunca nos preocupámos muito com as notas, nem lhe exigimos grande coisa em relação a elas.

Na semana passada, chegou a casa todo chateado porque teve as notas mais baixas da sua vida. Não chegou a ter negativas, mas as positivas não estavam muito longe disso.
Disse-me, indignado: - Mas como é que isto foi acontecer?! - É normal, não estudas quase nada e a matéria começa a ser mais - respondo, e pergunto a seguir - Tens estado com atenção nas aulas? - Nem por isso... Tenho falado um bocado na aulas... - E essas conversas pelo menos têm sido interessantes?  - Mais ou menos. Às vezes s…