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O Pintas

Fotografia DAQUI

Estudei Gestão Equina numa terra no centro de Portugal.
A escola dividia-se entre uma antiga escola, no centro da aldeia, convertida em internato masculino e salas de aulas e uma herdade a uns setecentos ou oitocentos metros já quase fora da localidade.
Os alunos tinham aulas ora na escola, ora na herdade e seguiam geralmente a pé de um lado para o outro.

Um dia, o Pintas apareceu por lá (já não me lembro bem onde o encontrámos pela primeira vez), um cão talvez arraçado de dálmata, pois era branco com pintas negras.
Deram-lhe o nome de "Pintas", mas havia quem o chamasse de "Beethoven". Na verdade, podiam chamá-lo como quisessem que o cão reconhecia quando a conversa era com ele.

O Pintas fazia o caminho herdade/escola e escola/herdade vezes sem conta. Penso que a intenção era acompanhar os seus amigos preferidos no caminho que separava as duas instalações escolares... Seguia a nosso lado como se fosse mais um aluno. Deixava-nos na herdade e seguia de novo para a escola a acompanhar outros amigos.
(Quando o meu professor de equitação, que tinha uma carrinha de caixa aberta, nos dava boleia para a herdade, lá ia o Pintas connosco na carrinha.)

Durante o dia, torneava os cavalos enquanto os aparelhávamos ou os limpávamos, ou ia esperar alunos à porta da sala de aulas.
Ficava ao nosso lado, quieto e atento, quando nos deitávamos na palha em conversas de adolescentes, e deitava a cabeça no nosso colo para lhe catarmos as pulgas e para lhe matarmos as carraças.

Havia sempre alguém que lhe trazia restos do almoço ou do jantar da cantina da escola. Até que as senhoras que ali trabalhavam começaram a guardar comida para ele. Passou a ter sempre o almoço e o jantar assegurados e já sabia as horas a que devia comparecer à porta da cantina.

Quando nos queriam fazer mal, defendia-nos; quando lhe queriam fazer mal, defendiamo-lo.
O Pintas não tinha dono. Ele era o seu próprio dono. Era amizade o que nos unia ao cão e, penso, o que o unia a nós. Não havia qualquer sentimento de posse ou vontade de o sujeitar aos nossos desejos. Queríamo-lo livre para escolher com quem queria estar e ele parecia sentir-se muito bem e saber gerir essa liberdade.

À noite, vinha dormir à porta da minha casa.
A casa onde eu morava tinha um pequeno alpendre coberto e o Pintas achou que aquele lugar era o ideal para ser também a sua casa. Arranjei-lhe um tapete como cama para que não dormisse no cimento frio e, por volta das 21h/22h, lá chegava para pernoitar à minha porta.

De manhã, saía a correr para acompanhar o seu amigo preferido, um colega da minha turma, até à herdade.
Normalmente não me acompanhava. A minha função era de abrigo da noite. Cada um de nós preenchia uma parte da sua vida e era ele quem escolhia a função de cada um.
Havia noites em que ia dormir a casa de outros alunos ou que acompanhava amigos diferentes à escola. Os habituais ficavam na dúvida se lhe teria acontecido alguma coisa, mas depois conversávamos para o localizarmos e acabávamos por perceber que continuava vivo e por ali e que apenas tinha resolvido quebrar a rotina.

Na altura, eu ouvia muito Grant Lee Buffalo, que tem uma música em que se ouve um cão a ganir ao longe. Sempre que a ouvia ia à porta ver como estava o Pintas. Geralmente ou estava a dormir, ou ainda não tinha chegado...

Hoje, sempre que oiço Grant Lee Buffalo, lembro-me do Pintas. Ficou a banda sonora daquele cão livre e dono de si próprio. A música lembra-mo deitado à porta da minha casa, a dormir aconchegado no tapete às riscas que lhe arranjei.
É uma lembrança boa, porque traz consigo essa amizade pura e desinteressada entre pessoas e animais, em que um não serve o outro, mas em que o que os une é a vontade de estarem juntos.
O Pintas era isso: um cão que podia ser pessoa, mas que não era pessoa, e que ninguém queria transformar em pessoa. Era aceite como cão, respeitado como cão, amado como cão. Cheirava a cão e fazia da sua vida de cão o que lhe apetecia.


O Pintas gostava de toda a gente, excepto de um senhor, que trabalhava na herdade e que conseguia ver as horas pela posição sol, com quem embirrava. Creio que não era bem com ele que o cão embirrava, mas com bicicleta dele... Sempre que o via seguir na bicicleta, ladrava-lhe e seguia-o até conseguir. O homem, meio desequilibrado e irritado, ralhava e o cão, quanto mais ele ralhava, mais lhe ladrava. Era quase uma relação de amor/ódio, daquelas em que quanto mais se zangam, mais se amam.

Na sua vida cheia de rotinas e agitada, o Pintas nunca pediu para entrar em restaurantes. Acredito que isso não fizesse parte dos seus sonhos caninos e que preferisse comer uns bons restos de cascos de cavalos, ainda fresquinhos e acabados de serem cortados pelo ferrador - como tantas vezes fez para repor o cálcio - do que ser metido dentro de um restaurante por umas horas, sem poder abanar o rabo ou coçar a pulguinha atrás da orelha para não incomodar os convivas.

Claro que isto sou só eu a tentar ler-lhe os pensamentos...
Talvez os citadinos amiguinhos dos animais, aqueles que vestem cães com roupas de gente, saibam mais sobre estas coisas...

Quem sou eu para duvidar de tamanha sabedoria e experiência no que concerne a desejos caninos?
Realmente, não serei ninguém. Afinal, sou só uma pessoa que gosta de animais que sejam apenas... animais.


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