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Injustiça e intolerância

A tentativa de mostrar que se é justo cai amiúde na intolerância. Parece um contra-senso e, até há bem pouco tempo, eu pensava que isto não existia.

Só após ser mãe e ter um filho que faz algumas coisas bem feitas e tem (perdoem-me a ausência de modéstia neste capítulo, mas não consigo dizer isto sem parecer que me estou a gabar, quando, de facto, não estou, mas parecerá sempre que sim) uma inteligência e cultura acima da média, é que percebi que isto era possível de acontecer.

Os modelos estilizados, que as pessoas seguem cegamente e, para com os quais, se abstêm de usar o pensamento crítico, potenciam a intolerância. 

Imaginar alguém que é bom aluno é encaixá-lo no sector dos famosos marrões. Os ditos "marrões" são sempre relacionados com quem estuda horas a fio, é exemplarmente bem comportado e acata todas ordens sem as colocar em causa ou sequer questionar.

Encontrar alguém que é bom aluno, que não estuda a ponta de um corno e que tem maus comportamentos periódicos agita esta percepção de marrão e, consequentemente, de bom aluno. E entorna-a na intolerância. 

Se se permite a um mau aluno comportar-se menos bem nas aulas, já a um bom não se permitirá, porque é imperativo mostrar-se que se é isento, que não se favorece os bons alunos só por serem bons alunos. Ora aqui mora a intolerância porque não se age de igual modo com uns e com outros, porque se acaba por ser injusto quando se toleram determinadas coisas a umas pessoas (apenas porque as temos em baixa conta) e a outras não (apenas para limpar a nossa imagem de pessoas parciais).
Neste caso, estamos a ser intolerantes tanto com o mau aluno - porque o temos em baixa conta, só por ser mau aluno, como se isso definisse a pessoa - como com o bom aluno, porque não lhe permitimos ser uma pessoa normal que erra como todas as outras.

A imparcialidade e justiça, que tentamos a tanto custo demonstrar, caem irremediavelmente naquilo que não queremos de todo cair: na intolerância e injustiça.
Se não tivermos a capacidade de analisar friamente a nossa atitude, sem lhe misturarmos egos ofendidos, torna-se inevitável parecermos tudo aquilo que não queremos parecer e, pior ainda do que parecer, acabamos por ser efectivamente isso. 


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