Avançar para o conteúdo principal

Injustiça e intolerância

A tentativa de mostrar que se é justo cai amiúde na intolerância. Parece um contra-senso e, até há bem pouco tempo, eu pensava que isto não existia.

Só após ser mãe e ter um filho que faz algumas coisas bem feitas e tem (perdoem-me a ausência de modéstia neste capítulo, mas não consigo dizer isto sem parecer que me estou a gabar, quando, de facto, não estou, mas parecerá sempre que sim) uma inteligência e cultura acima da média, é que percebi que isto era possível de acontecer.

Os modelos estilizados, que as pessoas seguem cegamente e, para com os quais, se abstêm de usar o pensamento crítico, potenciam a intolerância. 

Imaginar alguém que é bom aluno é encaixá-lo no sector dos famosos marrões. Os ditos "marrões" são sempre relacionados com quem estuda horas a fio, é exemplarmente bem comportado e acata todas ordens sem as colocar em causa ou sequer questionar.

Encontrar alguém que é bom aluno, que não estuda a ponta de um corno e que tem maus comportamentos periódicos agita esta percepção de marrão e, consequentemente, de bom aluno. E entorna-a na intolerância. 

Se se permite a um mau aluno comportar-se menos bem nas aulas, já a um bom não se permitirá, porque é imperativo mostrar-se que se é isento, que não se favorece os bons alunos só por serem bons alunos. Ora aqui mora a intolerância porque não se age de igual modo com uns e com outros, porque se acaba por ser injusto quando se toleram determinadas coisas a umas pessoas (apenas porque as temos em baixa conta) e a outras não (apenas para limpar a nossa imagem de pessoas parciais).
Neste caso, estamos a ser intolerantes tanto com o mau aluno - porque o temos em baixa conta, só por ser mau aluno, como se isso definisse a pessoa - como com o bom aluno, porque não lhe permitimos ser uma pessoa normal que erra como todas as outras.

A imparcialidade e justiça, que tentamos a tanto custo demonstrar, caem irremediavelmente naquilo que não queremos de todo cair: na intolerância e injustiça.
Se não tivermos a capacidade de analisar friamente a nossa atitude, sem lhe misturarmos egos ofendidos, torna-se inevitável parecermos tudo aquilo que não queremos parecer e, pior ainda do que parecer, acabamos por ser efectivamente isso. 


Mensagens populares deste blogue

Facebook lovers

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva …

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…

Voo da Paixão

Voámos alto, em noites gélidas que tornámos escaldantes. Voámos tão alto, que pude ver as estrelas e a Lua.
Mas o voo não é interminável e temos que pousar. Pousar para reabastecer, pousar para descansar e para voltar a voar... de novo... uma vez mais...
Quantas vezes o fizemos? Quantas vezes precisaremos de o voltar a fazer?

Se a paixão nos faz voar, o amor faz-nos pousar.