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Sexta à noite

DAQUI

De andar direito, até um pouco emproado, segue meio gingão pela rua fora. Hoje, que até está frio, as mangas da camisa têm de estar arregaçadas. É sexta à noite. E todas as sextas à noite merecem o esmero na indumentária, combinado com o perfume Yves Saint Laurent que a mãe lhe ofereceu no Natal. Está jeitoso e tão cheiroso que se sente ao longe.

Cruza-se com a vizinha do quinto esquerdo que vai entrar no prédio e cumprimenta-a com uma vénia. É gira. E quando elas são giras não se podem desperdiçar. Sacam-se as mordomias e os cavalheirismos da cartola e elas derretem-se que nem manteiga ao sol, ou gelado, sabe lá. Nestes momentos só sabe o que faria com um avião daqueles. Mas hoje não. Hoje é sexta à noite e às sextas à noite não é por ali que quer andar, por isso não se pode perder no caminho.

Saca as chaves do Audi azul descapotável da algibeira - não da cartola que na cartola só guarda aquelas elegâncias que impressionam as garinas - e dirige-se para o veículo enquanto vai rodando a argola do porta-chaves no dedo e cofiando a mosca que traz por debaixo lábio inferior.

Aquela mosca é sempre aparada com delicadeza. Demora quase uma hora a desenhá-la na perfeição. Não pode haver pêlo nem a mais nem a menos. Têm que ser na quantidade certa ou a noite de sexta correrá mal e ele voltará sozinho para casa.

Ainda se lembra de quando a fez pela primeira vez. A mãe, intrigada, perguntou "o que é isso que trazes aí? Esqueceste-te de fazer esse bocadinho de barba?". Ofendido, respondeu-lhe quase em murmúrio "não vês que é uma mosca?". E ela riu, riu tanto que só lhe apeteceu atirar-lhe com a caneca do café à cabeça. Não atirou e saiu deixando-a a rir sozinha.

Entra no Audi azul descapotável e verifica se está tudo conforme.
Só ali entra às sextas, já que durante a semana usa o Opel Corsa cinzento para ir para o trabalho. É mais barato e mais fácil de arrumar. Além de que não gostaria de ser visto a entrar no Audi azul descapotável com o fato-macaco da oficina vestido. Pareceria mal e sujaria os estofos de cabedal. Podiam pensar que andava a passear-se nos carros dos clientes e a isso não se poderia arriscar. É que um gajo tem que manter a reputação e não pode arruinar o trabalho de uma vida só porque quer andar de Audi azul descapotável todos os dias. Mas hoje é sexta à noite e tudo lhe é permitido, por isso, vai de Audi azul descapotável que foi para isso que juntou dinheiro durante tantos anos.

Conduz o carrão com jeitos de garanhão. Até rima com a tensão com que irá acabar aquela sexta. Será tensão ou deverá tirar-lhe o éne? Que se lixe! São lá horas de andar a pensar como se escreve em português! Ele, que até nem tem veia de escritor, quer lá saber de éne a mais ou éne a menos. Se ainda fossem os pêlos da mosca...

Arranca na auto-estrada a cento e vinte; pisa no acelerador, cento e trinta; a esta hora ainda não há bófia, cento e cinquenta e o azul do Audi começa a ficar tremido; vá, cento sessenta e ficamos por aqui ou já ninguém consegue ler o autocolante nas traseiras do carro que avisa para terem cuidado com o solteirão que vai a bordo.

Depois de estacionar o carrão - do garanhão que virá a ter qualquer coisa acabada em "ão" no final da noite - no lugar do costume, entra no pub e estaciona o seu lindo corpinho, que poderá ser corpão, na zona do bar das outras sextas. O lugar está desocupado à sua espera, o barman sabe que virá e guarda-lhe aquele cantinho com vista privilegiada.

Pede o gin. Detesta gin, mas como é a bebida da moda lá terá que emborcar aquela merda. A sorte é que a cara de enjoado que faz ao bebê-lo agrada a algumas garinas. E a noite poderá ficar mais colorida e acabar em arco-íris no motel do costume. Vale o esforço do gin. E das mangas arregaçadas em pleno Inverno, e do perfume de marca charmosa e cheiro estranho, e do andar gingão, e do Audi azul descapotável, e da mosca.

É que é sexta à noite, porra!

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