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"Era uma vez uma baleia azul..." - por uma ovelha negra

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Parece que o jogo "Baleia Azul" tem assustado muita gente. Sim, de facto, pode ser muito assustador, mas não está sozinho naquilo que nos deve assustar.
Tenho a sensação que andamos um bocado anestesiados e que só nos assustamos com notícias alarmistas, sem, porém, tomarmos consciência daquilo que nos está tornar cada vez menos pessoas.
As novas tecnologias são ferramentas de grande valor, no entanto são também a causa de mudanças drásticas na sociedade.
As relações pessoais, tanto entre adultos, quanto entre jovens, têm sofrido imenso com a dependência das tecnologias de que todos acabamos por sofrer um pouco. As relações com os outros e connosco próprios. Somos menos sociáveis, pensando que somos mais.
Penso que é na adolescência que se nota mais os efeitos nefastos desta dependência. A partir dos dez anos é comum e aceitável pela maior parte dos pais terem os filhos constantemente agarrados aos telemóveis. E aqui o que me assusta mais é tomar-se por normalidade aquilo que não é de todo normal. Ouvem-se pais dizerem "ah, hoje o meu filho ficou três minutos sem telemóvel, nem parece dele" como se fosse completamente normal os filhos estarem constantemente de telemóvel na mão. A aceitação pacífica da dependência é imensamente perigosa e parece que é pouca gente que se preocupa com isso.
Vêem-se miúdos que não trocam uma palavra quando estão juntos, estando cada um fixado no seu telemóvel. Vêem-se miúdos que até já só namoram por mensagem, que já nem se telefonam, mas, em vez disso, falam por chat. E depois há quem conte isto entre gargalhadas, como se tivesse imensa piada.

No outro dia, numa reunião de pais sobre a avaliação do segundo período da turma do meu filho, a directora de turma informou que os alunos iriam ser proibidos de ter os telemóveis junto deles nos momentos de avaliação, ou seja nos testes. Eu, que sou a ovelha negra das reuniões de pais, ousei perguntar porque iria ser só nos testes, já que a avaliação supostamente é continua e as aulas também são períodos de avaliação. Claro, que a maior parte dos pais, senão todos, me olhou de viés e que a professora se desculpou com a questão da responsabilidade sobre os telemóveis que serão colocados dentro de uma caixa longe dos alunos durante os testes, mas que não poderão ser postos nessas mesmas caixas durante as aulas, porque quem se responsabilizaria por eles. Houve até uma mãe que me disse qualquer coisa como um "por favor!", com ar indignado.
Ora se os telemóveis têm sido motivo de distracção por parte dos alunos durante as aulas, porque não os podem deixar nas caixinhas também nas aulas? "Por favor", dirá aquela mãe indignada e pensarão todos os outros pais.

O que acho piada nisto tudo, mas que não tem piada nenhuma, é que se estes mesmos pais soubessem que os filhos andavam a fumar ganzas na escola todos os dias, ficariam altamente preocupados, arranjariam maneira de culpar a escola e fariam alarido, mas como os filhos só andam de olhos postos nos ecrãs dos telemóveis durante dezoito horas por dia e também dentro das aulas, já não se ralam. Talvez lhes saísse, no máximo, um "oh, que chatice!" e virariam a cara para o lado com um "puf!".

A verdade é que como este fenómeno é relativamente recente e ainda não há estudos suficientes que digam que a dependência dos ecrãs faz mal às criancinhas, ninguém se rala muito, porque eles enquanto estão dentro dos telemóveis não chateiam e, pronto, é muito útil poder telefonar-lhes sempre que nos dá na gana, mesmo quando estejam dentro das salas de aulas.

O pior é que apareceu por aí uma tal de baleia azul e agora está toda a gente concentrada na baleia e a espreitar para os telemóveis dos filhos a ver se a vê por lá.

Pois... Talvez a dita cuja não apareça assim em tantos telemóveis, mas se calhar era de valor não se abandonar tanto os filhos e deixá-los tanto tempo entregues aos devaneios da Internet e dos telefones...

Talvez as experiências reais, aquelas que metem gente de carne e osso e que treinam a socialização real dos adolescentes, ensinando-os a lidar com os outros; em que eles aprendem a identificar os seus próprios limites de uma forma mais saudável, fossem ainda de algum valor para o crescimento deles...
Não sei, digo eu que sou só uma ovelha negra e ainda não cresci o suficiente para me tornar uma baleia azul.

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