Avançar para o conteúdo principal

O bom, o mau e a promoção

Ainda não acredito que haja gente totalmente má, ou totalmente boa. Digo "ainda", porque talvez daqui a uns anos esta minha ideia venha a mudar. Não sei... espero que não.

Ser bom ou mau não é uma posição estática. Ninguém é sempre bom ou sempre mau. Além de as pessoas mudarem à medida que vão crescendo e vivendo, também não conseguem prolongar a sua bondade ou maldade infinitamente. Há momentos em que saem da sua "categoria" e embarcam na outra. Por isso, catalogar alguém como bom ou mau é redutor. Na verdade, catalogar alguém do que quer que seja é sempre redutor.

Ora, hoje, mais do que em qualquer outra altura da História, a promoção é o factor que marca a diferença nesta visão do bom e do mau, atirando toda a gente para um lugar no catálogo da humanidade e pespegando-lhe uma legenda por baixo. A propaganda tem este efeito estranhamente desumano de colar etiquetas difíceis de arrancar nas pessoas. Estas etiquetas não só dizem respeito à bondade e à maldade de cada um, mas também ao "ser-se bom" ou "ser-se mau" em determinada matéria ou função.

O que me parece triste é termos mesmo de lutar por um lugar de destaque no catálogo e que, para recebermos a etiqueta certa, baste aplicarmo-nos na auto-promoção. Infelizmente, precisamos menos de ser e de nos esforçarmos para melhorar, do que de desenvolvermos a capacidade de nos promovermos.
Se nos promovermos bem e nos etiquetarmos com a etiqueta dourada, estamos safos! Se não nos soubermos promover, chapéu!, estamos fritos! Se não publicitarmos os nossos feitos, por melhor que eles sejam, não lhes dão o devido valor, tal como por pior que façamos mal, se encapotarmos as nossas maldades ou mal-feitos, ninguém se dá conta.

No fundo, o que está aqui em causa não é a nossa bondade, maldade, competência, etc., o que está em causa é a nossa capacidade de exibirmos aquilo que somos ou aquilo que queremos que os outros pensem que somos para que, ao consultarem o catálogo, percebam a que secção pertencemos. O maior problema é as pessoas já não se verem umas às outras. Olham de relance e tiram conclusões. Talvez a pressa com que andamos e a rapidez da informação sejam as culpadas por não olharmos duas vezes para os outros. Ou até para nós próprios. Mas atribuir culpas é fácil. O que é difícil é reverter esta tendência de olharmos tudo de relance.

Não são raras as vezes em que encontramos gente completamente incompetente em determinados serviços que por lá se mantêm, durante anos a fio, sem que melhorem um milímetro e alguém note, ou que o próprio note. Bem como encontramos gente terrível com auréola de santo e gente maravilhosa com cornos de diabo.

Estranhamente, é tudo uma questão de auto-promoção e nada de real valorização ou, sequer, de análise atenta.
Estas ausências e desatenções nas relações humanas são perigosas porque nos afastam uns dos outros. Criam fossos entre nós e deixam-nos entregues ao relance e ao lugar que ocupamos no catálogo. Ficamos reduzidos a uma etiqueta sem nos apercebermos que somos tão mais do que isso.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

#metoo ou eu também já vi muita coisa

Já fui bastante assediada, especialmente até aos trinta, trinta e poucos. Acho que, por isso, fui desenvolvendo uma capacidade que me permite notar situações de assédio, ou de simples interesse sexual, à distância. Não só quando sou eu a visada, mas também quando são outras pessoas. Normalmente, reparo no(a) assediador(a) e no(a) assediado(a).

Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo quando eu tinha uns quinze ou dezasseis anos.
Nessa altura eu frequentava amiúde as matinés de uma discoteca aqui da terra. Era miúda e era assim que passávamos as tardes chatas de domingo.
Um dia estava com uma amiga à porta da dita discoteca e houve um puto, mais ou menos da minha idade, que me fez uma proposta: pagava-me uma bebida lá dentro se eu curtisse com ele naquela tarde. Eu, que durante a adolescência tinha fama de antipática e petulante (creio que esta última característica se devia essencialmente à minha altura e timidez que, juntas, me faziam parecer uma pessoa petulante), mandei-o à…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…