Avançar para o conteúdo principal

Dia da Mulher atrasado

Às vezes penso que é a questão da maternidade que assusta tanto as sociedades em que a liberdade das mulheres é restringida por homens; que se fôssemos igualmente livres, com a capacidade que temos de gerar pessoas dentro de nós, poderiam considerar-nos ameaçadoras da liberdade masculina.
Às vezes, penso isto mas tento afastar o pensamento, porque sinceramente acredito na igualdade. Acredito que somos iguais, apesar das diferenças. Diferenças morfológicas essencialmente, mas mesmo assim diferenças.
Fazem-me confusão as formas de celebração do Dia da Mulher. Acho-as terrivelmente machistas. Como se a mulher é que devesse ser celebrada e não luta pela igualdade de géneros relembrada. Exaltam-se as características ditas femininas, através das flores, dos bombons, da beleza, da sensibilidade, da atenção ao lar e à família. E ser mulher não é nada disso. É ser igual a ser homem. É ser pessoa.
Mais do que se celebrarem as mulheres, deve-se relembrar que ainda não nos consideram iguais e plenas dos mesmos direitos. Deve-se relembrar as mulheres, daqueles países "longínquos" que ainda não podem conduzir, praticar desporto, ou até sair à rua sem ser à sombra de um homem. Deve-se relembrar as mulheres que são amputadas e exploradas sexualmente; que são utilizadas como escravas ou pertença de homens.
Há mulheres neste mundo com menos direitos do que animais ou objectos. Há mulheres sem voz.
Ontem, mais do que tudo, devíamos ter dado voz a estas mulheres aprisionadas. Porque não são de flores, bombons, beleza, sensibilidade ou atenção ao lar que as suas vidas se enchem. São de dureza, insensibilidade, desrespeito, exploração e maldade. Porque são, essencialmente, pessoas mal-tratadas e reduzidas a quase nada.
É delas, e da luta delas, o Dia da Mulher; não dos floreados e das visões hipócritas.

Mensagens populares deste blogue

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…