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Só para variar

Ando cansada. Tão cansada que não me apetece fazer nada. Só me apetece embrenhar-me no meio da natureza e ficar por lá, embrenhada. Já só me faz sentido olhar o céu, sentir os cheiros que dançam no ar e revolver a terra com as unhas. Tudo o resto me parece falso, inútil, fútil.

Não suporto o espírito natalício que me rodeia. Irritam-me as pessoas com a sua caridadezinha natalícia, com a adoração pelas crianças que só vem nesta época, com a falsa solidariedadezinha, com a fome consumista. Irritam-me as pessoas com as suas vidas de aparências e de alegrias exibicionistas.
As luzes de Natal que iluminam ruas vazias parecem-me cada vez mais artificiais. Não há gente para elas. E a que há não está realmente lá. As pessoas já não saem, não vivem, não conversam. Fingem que fazem imensas coisas e tiram fotos. Sugam tudo para dentro dos telemóveis e ficam-se por aí.
Parece que não há nada para fazer e nunca houve tanto para fazer. Apesar de certos locais se encherem, quem por lá anda, segue numa solidão atroz. Na Era da comunicação não há comunicação e o que se comunica é vazio, plástico, fingido.

Já não aguento o exibicionismo. Estamos cheios de exibicionismos. Queremos mostrar tudo, mas damos tão pouco... Não nos damos aos outros, não abrimos o coração para os deixarmos entrar. Pelo contrário, fechamo-nos. E por lá nos deixamos ficar cerrados a sete chaves. Somos intolerantes, cobardes e cruéis e exibimos a nossa intolerância, cobardia e crueldade da mesma forma que exibimos a nossa caridadezinha, solidariedadezinha e alegriazinha.

Foda-se, para onde foram as pessoas de verdade? Onde se esconderam? Porque escolheram viver nestas fogueiras de vaidades?
Onde estão as conversas profundas, os choques de ideias, o pensamento crítico, o afecto puro e despojado de interesses? Para onde foi o amor, a amizade, o apego?

Vivemos à superfície. Porquê, porra? Porque abdicámos de mergulhar na vida, quando podia ser tão mais fácil irmos ao fundo de nós próprios, dos outros e das coisas que nos circundam?
Temos tudo tão perto: conhecimento, informação, meios de chegar aos que estão longe, voz... E, no entanto, distanciamo-nos. Recolhemo-nos em quotidianos insalubres, estéreis e débeis e ficamos a padecer alegremente das nossas vidas doentias.

Preciso de ar, sinto-me a afogar no rol de mentiras que é a existência humana. Preciso de contemplar o céu, de sentir os cheiros que dançam no ar e de revolver a terra com as unhas. Preciso de um pouco de verdade. Só para variar...

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