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Ensino e aprendizagem

Na turma do meu filho há um miúdo repetente que tem 15 ou 16 anos. O meu filho está no 7º ano, o que quer dizer que o miúdo já deve ter chumbado uns três ou quatro anos.
No outro dia, dizia-me ele:
- Sabes, mãe, acho que se vê quem são os meus professores bons pelas notas do B.?
- Então?
- Acho que o B. vai ter muito boa nota a Educação Visual e o professor é dos melhores que temos.
- Porque achas que uma coisa está relacionada com a outra?
- Porque ele consegue estar atento às aulas e faz trabalhos muito bons, ao contrário de nas aulas das outras disciplinas.

Esta conversa com o meu filho, fez-me pensar que hoje, o ensino e o sucesso escolar dependem demais da qualidade dos professores.
Haver alunos que chumbam vezes sem conta está demasiado nas mãos dos professores porque o sistema de ensino não funciona. Se houvesse uma maior abertura às necessidades, expectativas e características de cada aluno, em vez de se "encarneirar" toda a gente, talvez houvesse menos miúdos a chumbar e a chumbar menos vezes.
Não acho que se deva baixar o nível de exigência, de maneira nenhuma, mas parece-me imperativo que a forma de ensino e as matérias leccionadas interessem aos aprendizes. E quando digo "interessem", não digo que as matérias se cinjam a jogar minecraft ou até que o meio para se transmitir o conhecimento deva ser a partir das novas tecnologias (acho até que a introdução das novas tecnologias nas aulas começa a ser um pouco excessiva), quando digo "interessem", quero dizer que vão de encontro às características e interesses dos alunos e, especialmente, lhes incutam uma certa sede por mais conhecimento.

Se o colega do meu filho se interessa por desenho, porque não se chega a ele através do desenho para lhe ensinar matemática, português ou outra disciplina qualquer?
Porque as turmas são gigantes e porque o ensino é descabido quando insiste que todos os alunos aprendam da mesma maneira. Assim, só mesmo a mestria de um muito bom professor para conseguir ensinar alguma coisa. E como os professores são pessoas, com todas as suas qualidades e defeitos, não podemos ter o ensino dependente da mestria de cada um deles. Antes pelo contrário, o ensino tem de funcionar independentemente das características de quem o lecciona. Tem de haver um sistema (ou vários) que amplifique as formas de ensinar de maneira a que ele chegue aos diferentes alunos, sem uniformizar as pessoas, tanto alunos quanto professores. É o método, ou melhor a amplificação dos métodos, que deve possibilitar o acesso aos ensinamentos por todos.
O processo de aprendizagem deve ser estimulante para que os alunos gostem de aprender, porque só gostando de aprender se aprende realmente.
Se os alunos sentirem curiosidade pelas coisas e se sentirem impelidos a expandirem o leque de conhecimentos, vão aprender com maior facilidade. E o que aprenderem vai ficar-lhes para sempre. Esta sede de conhecimento e gosto pela aprendizagem até os ajudaria a assimilarem matérias que lhes são menos interessantes ou aborrecidas, porque o processo em si já os estimularia.

Pelo contrário, vejo que se pretende que os aprendizes "marrem" matérias para as despejarem nos testes. As aulas são maioritariamente monocórdicas e não incentivam à participação activa dos alunos, ao questionamento, à visão crítica e à reflexão. Há até quem não permita que se duvide ou se perspective os assuntos tratados.
Percebo que a questão "tempo" seja um factor preponderante na ausência dos debates abertos nas aulas, mas não pode ser determinante. Afinal, quer-se que os alunos aprendam ou não?
Eu acho que não e isso preocupa-me sinceramente, porque quando se tem um sistema de ensino que não tem como objectivo primordial a aprendizagem é sinal que esse sistema não está a funcionar, que é obsoleto e que deve ser rejeitado. Mas não o vejo ser rejeitado, nem por professores, nem pelos pais que fazem manobras e contorcionismos para adaptarem os alunos e os filhos a algo que não lhes serve, nem servirá nunca. Vejo professores preocupados com o andamento das aulas dadas e com o cumprimento dos programas e pais fixados nos resultados dos testes e no bom aproveitamento às disciplinas como se isso chegasse como prova dos conhecimentos adquiridos.

Se fizéssemos perguntas aos alunos sobre matérias dadas no ano anterior, aposto que a maior parte deles não saberia responder correctamente, mesmo que tivessem tido boas notas. Aprenderam o que lhes ensinaram? A mim, parece-me que não.
Já se perguntássemos ao B., colega do meu filho, sobre um desenho que ele tenha feito no ano anterior, aposto que ele saberia responder correctamente. Porquê? Talvez porque só se sabe o que se quer verdadeiramente saber e porque quando damos alguma coisa a alguém, essa pessoa tem de estar aberta a recebê-la.

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