Avançar para o conteúdo principal

Aridez

Sinto um desapego crescente pelos objectos. Talvez por isso me distancie de tudo o que é compras e o consumismo me aflija tanto...
Vai longe o tempo em que havia muito que me fazia falta. Hoje, não sinto falta de coisa nenhuma. Não desejo nenhum presente de Natal ou de aniversário. Nada me encheria as medidas ou ocuparia os espaços que trago vazios. E tenho vários, nos quais os objectos nunca caberiam.

Todos os anos, a minha mãe obriga-me a escolher qualquer coisa que me ofereça. Escolho um creme para a cara que não compraria se não mo oferecessem. Há já vários anos que é isso que me cai no sapato vindo dela e me dura o ano certinho de cara apresentável.

Ficaram para trás os velhos tempos em que usava produtos de maquilhagem.
A base, o batom ou as sombras ainda tenho as da altura do curso de manequim, de há uns 15 anos. Tenho-os ali, dentro de uma bolsinha que nunca uso, para o caso de um dia me apetecer ou precisar. Nunca precisei, nem me apeteceu. Prefiro a cara limpa de gorduras e cores. Um risco nos olhos e rímel nas pestanas chegam para me tornar numa outra, mais arranjadinha e senhora como a vida por vezes me impõe.

Hoje, fui com a minha mãe comprar o tal creme do ano. A funcionária da perfumaria que nos atendeu perguntou o que punha na cara. Nada, não ponho nada. Vi o espanto crescer-lhe na expressão. Nem base? Não, nada, só creme hidratante, quando o tenho ou quando não é Verão e a transpiração mo leva do rosto num instante.

Já no corpo é a mesma coisa, só creme hidratante e só quando me apetece algum besunte que me alivie as escamas da pele seca.
Toda eu, sou seca de pele. Escamo e arranho, mas prefiro-o ao óleo dos cosméticos, ao sebo escorregadio dos produtos e ao cheiro excessivo que alguns trazem.

Talvez a secura me venha de dentro para me proteger dos exageros nos gastos... Talvez esta secura em crescendo seja a capa que me separa daquilo que me é fútil, estranho, insignificante... Talvez a aridez da idade me tenha vindo limpar dos supérfluos, assim como que a preparar-me para o fundamental e para aquilo que me poderá encher os imensos vazios que habitam este deserto sedento de oásis...

Ou talvez eu seja mesmo só desleixada e desprovida de afeição pela matéria...

Vá-se lá saber...

Mensagens populares deste blogue

Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
Antes do Verão: Anita corre quilómetros para caber no biquíni
Em férias:  Anita mete o pezinho na areia e o nariz no mar
Em dias de sol: Anita vai à esplanada com as amigas e diverte-se a potes
No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
À hora das refeições:  Anita cozinha um delicioso jantar cheio de super-alimentos e de baixas calorias ou  Anita vai almoçar a um sítio todo fashion, come imenso marisco e bebe sangria de champagne
Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
Sábado à noite:  Anita dança e bebe gin 
Tarde de domingo:  Anita vê um filme com a família ou Anita tem umas flores lindas…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…