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Ao toque das notificações

Wall-E

Há consenso quando se diz que as crianças andam a abusar dos smartphones; que não largam os aparelhómetros e que já quase não socializam umas com as outras.

Se nos olharmos ao espelho, por sinal um exercício deveras enriquecedor que devíamos experimentar mais vezes, também nós, pais, abusamos dos smartphones e deixamos que eles invadam a nossa vida e nos roubem o tempo que é dos nossos filhos.
Ah, ok, nós temos desculpa, porque é o e-mail do chefe que chegou, ou o da escola dos filhos com o agendamento da reunião de pais, ou porque "postámos" uma coisa muito gira nas redes sociais e precisamos urgentemente saber se os nossos amigos do Facebook ou do Instagram gostaram. Sim, nós temos sempre desculpa.

Todos estamos abusivamente ligados ao mundo virtual, de tal forma que praticamente vivemos dentro dele. Transferimos as amizades para um espaço conjunto imaginário que preferimos ao contacto presencial com as outras pessoas. Já não precisamos de ir ao café à noite, ou ao bar, para nos encontrarmos com os amigos. Dentro da caixinha que não largamos por um minuto estão lá todos. Para quê sair de casa e apanhar o frio do fim de tarde ou o bafo do fumo dos cigarros dos bares, se conversamos com quem queremos através do telefone em pijama e chinelos no conforto do lar?

Quando temos o azar de ter de sair de casa, captamos cada momento com a máquina fotográfica do aparelho sempre em riste. Registamos tudo para provarmos aos outros e a nós próprios que ainda vivemos alguma coisa. E incluímos os filhos nos nossos delírios. Mandamos os miúdos enquadrarem-se com os quadros da exposição, com o pôr-do-sol na praia, com a maior árvore de Natal da Europa ou com as flores do jardim, mas não lhes respondemos às perguntas, não respiramos em conjunto a brisa do mar ou rebolamos na areia, não lhes explicamos porque o pintor pintou aquele quadro ou o que se festeja no Natal. Introduzimos apenas os miúdos no aparelho para os exibirmos, e à nossa falsa felicidade, nas redes sociais. Porque a vida deixou de ser vivida para passar a ser apenas mostrada. Mostramos aquilo que gostaríamos de ser, mas não conseguimos ser nada em concreto.

Como podemos ter legitimidade para criticar as crianças? Como podemos ter autoridade para as proibirmos de abusar dos telemóveis que nós próprios lhes oferecemos e que até nos dão muito jeito quando queremos jantar no restaurante sossegados sem que nos interrompam com mil e uma perguntas ou quando os queremos contactar a qualquer hora quando estão na escola?

Não me parece que tenhamos nem legitimidade nem autoridade.
Somos o primeiro exemplo que os nossos filhos seguem e somos o pior exemplo que poderiam seguir.

"Ah e tal, mas o mundo do trabalho exige que estejamos sempre ligados à Internet!". Sim, exige, porque nós deixámos e continuamos a deixar cada dia um pouco mais. Porque deixámos o trabalho invadir o nosso espaço privado e porque somos preguiçosos e seguimos sempre o caminho aparentemente mais fácil.

É mais fácil receber o e-mail do chefe do que o ouvir; é mais fácil receber a convocatória para reunião de pais por e-mail do que ter de assinar um papel que nos enviem para casa; é mais fácil ligar para o telemóvel dos nossos filhos do que ligar para a escola e pedir que os chamem; é mais fácil ter os filhos com as cabeças dentro de um ecrã do que lhes responder às perguntas que têm para nos fazer durante o jantar.

Hoje, temos crianças incapazes de socializar, crianças que vivem dentro dos seus telemóveis, assim como os pais vivem dentro dos deles.
Os nossos filhos são o espelho ao qual viramos a cara para não nos enxergarmos e que vamos deixando que se percam dentro de um ecrã, no mesmo ecrã em que vivemos comandados pelo toque das notificações.

Será que algum dia os iremos encontrar fora do ecrã? Será que eles saberão viver fora do quadradinho? No que nos estamos todos a tornar?

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