Avançar para o conteúdo principal

A cama

Sentou-se na beira da cama e descalçou os chinelos um a um. Encostou-os geometricamente lado a lado à parede em frente, mesmo por debaixo da janela.
Rodou sobre as nádegas e enfiou as pernas dentro da cama. Abriu o livro, abandonado há já três dias, e retirou o marcador de metal da página 57 que leu por quatro vezes sem reter uma palavra. Desistiu. Voltou a marcar a página 57 e a abandonar o livro por tempo incerto.
Deixou-se deslizar para dentro dos lençóis e aninhou-se, como de costume, na posição fetal virado para a esquerda.
Fechou os olhos e tentou silenciar os pensamentos.
Faltava-lhe o calor do corpo dela a aquecer-lhe as costas. As dobras dos joelhos não tinham o toque dos joelhos dela, as plantas dos pés sentiam a falta dos peitos dos pés dela, o calor da sua respiração na cova que lhe separava os omoplatas já não estava ali para lhe eriçar os pêlos. Faltava o som do ar que saía e entrava nos pulmões dela a um ritmo certo e lhe sossegava as ideias até as calar num sono profundo. O braço que lhe envolvia o ventre, acabando numa mão fria a rodear-lhe o pulso era agora apenas uma sensação fantasma.

Rodou para o lado contrário e apalpou a cama vazia a seu lado. Estava tão gelada que o frio lhe percorreu o corpo por inteiro.

Durante trinta anos, aquele lado da cama fora ocupado pelo corpo da mulher que o envolvia todas as noites. Agora a sua ausência enchia o espaço que outrora fora de amor e protecção, tornando-o insuportável.
O vazio do aconchego que lhe precedera o sono até ao fim da vida da mulher, tomou conta da cama e atirou-o para fora como se lhe tivesse dado um empurrão.

Foi ao armário buscar um cobertor e enroscou-se no sofá da sala.
Deixara de pertencer, para sempre, àquela cama.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Estamos a matar a infância das nossas crianças!

Se há cerca de vinte, trinta anos, não se sabia tanto quanto se sabe hoje sobre pedagogia, psicologia ou educação, actualmente este conhecimento é muito mais vasto. Tão vasto que tendemos a instrumentalizar a forma como educamos as nossas crianças.

Olhamos para os nosso filhos e vemo-los como projectos pessoais. Queremos que sejam os melhores e sempre melhores que eles próprios, que estejam sempre a evoluir para que sejam bem sucedidos na vida. É normal, porque independentemente das nossas crenças, queremos o melhor para eles, porque os amamos. Mas esta forma de amar e de os tentar conduzir para o sucesso está a matar-lhes a infância. 
Não são poucas as vezes que ouvimos coisas do género:  "Quero que o Rui seja um óptimo engenheiro";  "Estou a fazer tudo para que a Ana seja a melhor professora que já leccionou";  "O que mais quero é que o André vença no mundo do trabalho como o melhor designer gráfico".
Também dizemos que A ou B tem que frequentar determi…