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Matar o tempo

Estou à espera de consulta.
Entram e saem pessoas dos gabinetes: doentes, médicos, assistentes.
Há quem fale ao telefone; quem passeie os dedos no ecrã do telemóvel; quem veja televisão; quem leia revistas.

Pego no meu caderninho e escrevo. Observo as pessoas e desenho-as no papel. Uma força intrínseca obriga-me a transcrever momentos, como se uma fome insaciável me impelisse a sugar a alma dos outros que só cessa em forma de palavras. Preciso perpectuá-las por escrito para que não me fujam da memória.

- Sr. Diogo Sousa! - chama a assistente do gabinete quatro.
O Diogo, de uns 15 anos acabados de fazer, lá segue para o gabinete quarto de phones nos ouvidos e telemóvel na mão. A mãe acompanha-o com ar preocupado, o mesmo ar preocupado que todas as mães têm quando vão ao médico com os filhos.

- Nº 47!
E a senhora da senha 47 dirige-se ao balcão.

Cruzam-se conversas em burburinho. O casal que está ao meu lado fala de trivialidades. Matam o tempo, aqueles dois.
A recepcionista recebe dinheiro e marca novas consultas.
E eu escrevo com pressa para que o tempo até à minha consulta não me falte à escrita. A caneta desliza no papel numa caligrafia estranha. Escrevo-os a todos, até ao senhor que hesita aproximar-se do balcão...
Dá dois passos e detém-se junto à parede, onde encosta o ombro e ali fica, à espera, como todos nós.
Esperamos a nossa hora que, a uns, tarda em chegar.

A mim falta-me o tempo que não quero matar, mas que tento estender até que as palavras me faltem. Até acabar esta minha escrita.

Chamam-me ao consultório. Guardo o caderno, arreliada, e passo pelo senhor encostado à parede. Queria-o inteiro no meu no papel. Fica pela metade. Hoje.

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