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Supermercado milagroso

Amanheci em desalento. A noite havia sido pouca, levantei-me irritada e sem sono que, há já vários dias, andava em falta, chorei, discuti. Não saí de casa até à hora em que fui ao supermercado. 
No espelho, antes de sair, vi-me velha e cheia de rugas, cabelo estranho, olheiras, olhar triste e cansado.
O fim do dia prometia não destoar do seu início, ainda mais por ter de ir às compras que detesto.

Já no supermercado, na secção dos laticínios, encontrei dois chineses em busca de leite gordo. Olhavam as prateleiras desorientados e pediram-me socorro. Procurei o que pretendiam e ajudei-os a distinguir as várias qualidades de leite para que numa próxima ocasião não precisassem do auxílio de ninguém. Agradeceram-me muito e levaram o produto que pretendiam.

Na secção dos congelados, uma senhora abalroou-me o carrinho de compras. Pediu-me imensas desculpas e devolvi-lhe um sorriso acompanhado por um "não faz mal".

Na padaria, esqueci-me de tirar a senha e a freguesa que me seguia tirou-a por mim e entregou-ma, antes de tirar a dela. Agradeci-lhe e trocámos algumas palavras enquanto esperávamos que nos atendessem. Acabou por me aconselhar um novo bolo que assenti e levei para casa.
Na caixa, a funcionária, que já me conhece, travou uma animada conversa comigo e despedimo-nos a rir.

Saí do supermercado melhor do que entrei (o que é raro em mim), mas perseguida pela dúvida se a minha aparência desgraçada teria contribuído para que as pessoas me tratassem melhor ou se simplesmente estavam mais simpáticas naquele dia.

Quando me reencontrei com o meu homem, recebeu-me com um "estás cada vez mais nova e bonita" que estranhei por achar precisamente o contrário.

Sim, parece que, ao contrário de todas as expectativas, há dias maus que acabam bem!

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