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Vejam só o que encontrei!



Resumindo

  • Licenciatura em marketing (um profissional certificado);
  • Gosto pela área comercial (amor cego que se venda barato); 
  • De preferência, recém-licenciado (cabeça fresquinha e sem manhas);
  • Com vontade de aprender (que aceite, feliz, todas as "óptimas" condições de trabalho que lhe oferecem, porque os ensinamentos não têm preço);
  • Disponibilidade imediata (já a sair de casa e a arregaçar as mangas); 
  • Carta de condução (vai de carro e não seguro, como a Leonor descalça do Camões); 
  • Oito horas de trabalho por dia e não por noite (muito tempo luminoso para aprender, sem necessidade de acender velas).


Tudo isto, a troco de:

  • Um contrato a termo incerto (um trabalho p'rá vida);
  • 550€ / mês de salário negociável (uma fortuna que pode ser negociável, caso o candidato seja um ingrato);
  • Refeições incluídas (é melhor comer bem durante as horas de serviço, porque vai passar muita fominha a partir daquela hora do dia em que tiver de acender as velas);
Portanto, uma óptima oferta de emprego!
Eu cá já guardei nos favoritos para não perder esta preciosidade!



Este aqui, que recruta um engenheiro mecânico, deixo à vossa consideração, porque tem um perfil do candidato p'ró complicado e esta minha cabeça loira não tem capacidade para o avaliar.




E só mais este para uma ligeira comparação...


Onze anos de formação só custam mais 20€ /mês às duas entidades patronais lá de cima? A educação está barata e não se pode sobrevalorizá-la, não é? Vinte euritos chegam e sobram!
Depois de ver este anúncio, fiquei na dúvida se as "refeições incluídas", dos dois primeiros anúncios, são o valor das refeições ou se são "em género" como as deste último. 

Neste presente aqui em baixo, a entidade patronal é uma empresa de trabalho temporário que utiliza os serviços do Centro de Emprego para lhe seleccionar candidatos.
É impressão minha, ou há aqui alguma coisa estranha?

Ah, ok, a estranha sou eu!

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
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