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Um olhar em silêncio que nos prende ao amor


Passam carros e gentes em corrupio. Hora de ponta na cidade e a quietude em nós.
O largo enche-se de vidas cruzadas apenas pelo espaço. Seguem trilhos, na ignorância de que o caminho é já definido. Vão. E vêm.
O silêncio ampara-nos no tempo perdido e prende-nos por dentro. Fechamos portas ao quotidiano e abrimos janelas ao pensamento. Enclausuramo-nos na solidão daqueles que, alheios ao mundo, vivem de sentir.

O som da rua grita em vão, enquanto o olhar se demora em quem amamos. Porque ao amor nada o rodeia. Não há carros, não há gentes, não há sons. Há o silêncio do olhar que diz mil palavras sem um ruído. E no entanto, toca-nos na pele e acelera-nos o coração...
Enche-nos os espaços que não temos para o mundo e diz-nos que vida é só isto, um olhar em silêncio que nos prende ao amor.

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O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti. Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor. - É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir? - Sempre. Quase todos os dias no verão. - Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados. - Não…

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