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Múltiplos

Perdemo-nos a cada segundo que gastamos imersos em múltiplos.

Já raramente paramos para ler, ouvir, ver, sentir ou falar. Fazemos tudo ao mesmo tempo numa pressa que algo se esgote.
Querem-nos capazes de dominar vários idiomas, ferramentas, técnicas. Querem que sejamos dinâmicos e que tenhamos mil e uma competências; que estejamos aptos para tudo.
Se não temos determinada competência ou se não estamos aptos para certa função, que desenvolvamos as competências em segundos e que aprendamos rápido tudo o que ainda não sabemos.
Querem-nos imensos num. Queremo-nos imensos num. E corremos a colmatar cada falha, cada vazio, cada incapacidade.

Para quê? De que vale sermos vários se não conseguimos ser um? Se gastamos tempo a ser vários, em vez de nos demorarmos num?

Perdemos histórias, música, cor, toque e palavras. Perdemos vida a cada momento, a cada instante que nos ausentamos de nós mesmos. E ausentamo-nos tantas vezes.
Saímos de nós para buscar outros que não fomos, que não somos, que nunca seremos.

E levamos os filhos atrás.
Queremo-los muitos num só. Que controlem tudo. Que sejam perfeitos em cada tarefa, em cada esfera em que se movam...

Estamos a perder o "eu" para alimentar o "eu".

Quantos "eus" conseguiremos ainda alimentar? Quantos "eus" teremos ainda que sustentar para ver crescer o "eu" que se perdeu entre muitos?

Quantos?

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