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As calças

Não gosto de ir às compras. Detesto cada vez mais. Nenhumas compras. A única loja em que gosto de entrar é na de livros. Todas as outras dispenso.

Hoje, tive de ir ver roupa. Tenho roupa de que já não gosto e preciso de uma peça ou outra.
Costumo ir às compras a sítios baratos, com saldos, promoções, etc. Como já não dou grande importância ao que visto, não exijo grande qualidade, desde que goste, prefiro o barato. Como com quase a maior parte das coisas. Apenas os livros me impelem à compra, me tentam.

Não me entretenho a coleccionar bens materiais. Há outras coisas que me satisfazem. Não preciso de ter para sentir que sou. Preciso mais daquilo que não é comprável, o que acaba por ter um valor muito superior, sair mais caro, mas ficar para sempre. Sou, assim, um bocado esquisita e difícil de contentar.

Mas hoje, teve de ser. Mau dia, já que ao sábado, depois do fim do mês, há imensa gente a gastar o ordenado nas lojas por aí. E, especialmente, nas baratas.

Foi um tormento. Não só porque não gosto de lojas, mas também por com quem me cruzei na digressão consumista. Gente mal educada, muito mal educada, que nos atropela para chegar mais rápido à camisolinha barata; que não se desvia um milímetro porque está a ver determinada peça de roupa; que quase nos tira as coisas das mãos; que atira com desprezo para o monte uma peça que desdobrou para ver; que não diz "boa tarde" aos funcionários, nem obrigado quando lhe seguramos a porta para passar.
Para já não falar nas casas-de-banho imundas com xixi à volta das sanitas e nas tampas onde é suposto nos sentarmos.

Foi tão difícil a proximidade a estes humanoides que apenas comprei umas calças, afirmando a mim mesma dezenas de vezes que a roupa que tenho me chega e sobra.

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Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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