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A morte do encantamento

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O excesso de informação, conjugado com o fácil acesso ao esclarecimento de dúvidas pontuais e com a falsa proximidade do que dantes se sentia inalcançável, tem contribuído para a morte do encantamento.

Se o que nos era distante se fez perto, mesmo que virtualmente perto, o fascínio da descoberta foi-se esvaindo na ilusão do conhecimento.

A falsa proximidade e o aparente saber como a perda do pudor no exibicionismo parvo.

Lembro-me do constrangimento em se venerar a própria imagem; do recato no orgulho das qualidades estéticas ou na admissão das virtudes pessoais.
Sei que em muitos casos a suposta modéstia se fazia por polidez. E, por isso, não a tenho de grande valor, mas não tenho dúvidas que o excessivo culto do corpo e da aparência, assim como a auto-promoção das qualidades e competências de cada um, em praça pública ou gritados aos sete ventos, num narcisismo assoberbado, têm a sua dose de responsabilidade no definhar do encantamento.

Temos vindo a perder o mistério da descoberta e a capacidade de deslumbramento quando a curiosidade nos vem sendo facilmente saciada. Quando perante uma breve interrogação alcançamos uma breve, mas imediata, resposta. Não que acredite que todas as respostas que nos chegam sejam verdadeiras, claro que não, mas a rapidez e ligeireza com que atingimos um estado de contentamento, mesmo que fugaz, fazem-me acreditar que o processo encantatório se tem perdido com a proximidade a uma qualquer e ilusória solução. A verdade é que nos sentimos cheios com bocadinhos de quase nada. Transbordamos horas a ver as montras dos outros e a assimilar aquilo de que não precisamos. Empilhamos informações que nos são dispensáveis ao mesmo tempo que desenvolvemos a montra para nos vendermos. 

Somos, hoje, seres de uma vaidade desmesurada que abrimos a porta da intimidade para nos promovermos; que saltamos as fases da dúvida e do esclarecimento, do erro e da correcção; que roubamos o vagar à procura do que somos realmente porque exigimos o fácil e descartável, porque não nos queremos demorar no processo, nem arranhar a imagem que, constantemente, esculpimos de nós.

Vejo uma sociedade frenética em busca de prazeres diminutos. Vejo a tolerância à frustração e a degustação da vida diminuírem a cada passo para o futuro. Vejo o ser inteiro dissolver-se na construção de um imaginário, permitindo às almas sentirem-se completas na venda de um produto que não é mais do que a idealização daquilo que gostariam de ser. Vejo a procura perder-se no imediato e na ostentação da imagem, em detrimento da essência das pessoas e das coisas.

Guardo a esperança de que nos cansemos de prazeres efémeros e de que larguemos a necessidade de nos vendermos, ressuscitando, assim, o encantamento.


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