Avançar para o conteúdo principal

Fragilidades

Há séculos que luto contra a ideia de se esconderem as fragilidades. Parece-me completamente surreal o ser-humano não ser capaz de aceitar as próprias lacunas ou as dos outros.

Vivermos num mundo plástico em que só os ditos "vencedores" são considerados incomoda-me. Vencer, ser bem-sucedido em todas as áreas da vida, não existe. Temos falhas, tantas falhas que às vezes estas são mais do que os sucessos. Muito mais.

Qual é o problema de sermos frágeis? Somos humanos, porra! Não há gente perfeita. Felizmente.
Ser frágil significa que se que sente alguma coisa. Magoamo-nos, incomodamo-nos, sentimos. É bom termos a capacidade de sentir.

A capa que alguns põem de vida perfeita é falsa e só mesmo uma capa. Para quê? Se é com as próprias fragilidades que mais aprendemos... Com os erros, com os constrangimentos, com aquele assunto que nos põe à prova.

A vida engomadinha, bonitinha, arranjadinha, perfeita, é um embuste. Para os outros e, especialmente, para os próprios.
Podíamos ser todos tão melhores se soubéssemos aceitar a fraqueza alheia e pudéssemos verbalizar a nossa em voz alta sem que nos considerassem menores.

Se pudéssemos falar sobre aquilo que nos deixa débeis, mais facilmente nos tornaríamos capazes de aprender a força e a auto-superação. Porque elas vêm daí: das contingências, das contrariedades, do sofrimento.
Não vêm dos sucessos.
Os sucessos não contribuem em nada para a força ou para o equilíbrio da nossa existência. Vêm depois e nunca antes.  São alegrias que se conquistam. São momentos. Não são a máscara que se veste quando se sai à rua.

Quem sempre foi bem-sucedido, à primeira fraqueza, cai. E cai porque não tem o suporte das quedas anteriores, o apoio da experiência da queda. Caímos para nos levantarmos logo a seguir. Caímos para tapar aquele buraco e não voltarmos a cair nele de novo.
Devíamos ter orgulho, e não vergonha, das nossas quedas. São elas que nos constroem, que edificam as nossas competências e a nossa essência.

Esconder aquilo que nos torna vulneráveis é viver na mentira de nós próprios; é inventar o mar quando se vive o deserto e deixar de procurar água; é gastar o tempo que nos resta a fingir que somos outros e prescindir de nos fortalecermos e de nos tornarmos mais humanos. É desistir de nos tornarmos mais nós.

Mensagens populares deste blogue

O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Afectos e machismo

Temos um PR adorado pelos seus abraços e beijinhos;Temos um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que cita a Bíblia para desculpar a violência doméstica exercida sobre uma mulher adúltera.

Proponho o seguinte exercício: - Imaginar que o PR era uma mulher que investia em abraços e beijinhos aos populares; - Imaginar que o acórdão desculpava a violência doméstica exercida sobre um homem adúltero.
Que resultado obteríamos deste exercício? Calculo que surgiria a teoria de que a PR seria uma promíscua, carente de afectos, ou que se estaria a "atirar" a todo homem que lhe aparecesse à frente...Calculo que o homem agredido seria achincalhado por permitir sofrer violência doméstica por parte de uma mulher e que, em simultâneo, seria perdoado do adultério, tanto por ter uma mulher violenta, quanto por ter "carne fraca"... Enquanto condicionarmos a nossa avaliação das situações pelos géneros dos intervenientes, estaremos sempre em desigualdade. Enquanto não conseguirmos separar c…