Avançar para o conteúdo principal

A loucura da lucidez


Hoje, reli um texto que a minha mãe escreveu sobre a sua experiência enquanto doente oncológica.
Reler os acontecimentos e vê-los assim, em catadupa, entrega-nos a um passado que julgávamos quase arrumado. Não que ele não nos tivesse ficado marcado, mas que o tivéssemos escondido por debaixo de recordações boas, como que a camuflá-lo.

A história da minha mãe está enrolada na minha. Eu fui a primeira a experimentar esta coisa do cancro. Um linfoma de Hodgkin alojou-se-me no pescoço, escondido num gânglio. Fez dez anos em Abril. Dez, porra! Sobrevivi dez anos depois daquela porcaria me ter tentado estrangular. Estrangular pois... que morreria pelo pescoço.

Depois de mim, a minha mãe. Com aquela porcaria na ponta do pulmão direito. Sorte ser o direito que tinha mais por onde cortar, que o esquerdo tem de deixar espaço para o coração. E que coração, o da minha mãe que até inchou durante os tratamentos!

Na recuperação dela, o acidente. Onde ela, a minha avó e o meu filho levaram com outro carro em cima. O meu filho a vomitar os morangos do almoço no infantário, a minha mãe com um novo pneumotórax e a minha avó aflita das pernas.

Quinze dias de miúdo à beira da morte. Seis anos acabados de fazer e o oxigénio a diminuir no aparelho de medição. Quinze dias sem comer, traumatismo abdominal com lesões no fígado e pâncreas. E o pâncreas a jorrar líquido e a parar os intestinos. Dos piores dias da minha vida, senão mesmo os piores.

A minha mãe noutro hospital e o pai do meu filho no estrangeiro...
Se não fosse o meu pai aparecer no hospital e as amigas da minha mãe a segurar as minhas pontas que se desfiavam, desfazer-me-ia ali.

À noite, na cadeira azul das mães dos meninos doentes do hospital, o medo encrostava-se-me nos ossos. A febre do miúdo a subir, a tosse, as dores... Tudo isso eram facadas no meu peito. Esvaía-me por ali. O meu corpo deixou de se fazer sentir. Não sei como, mas silenciei o cansaço e andei aqueles dias tipo zumbi. Só a dor dele era a minha. Só essa se fazia realmente sentir.

Lá fora, no cigarro da pausa que me permitia ver a luz do sol, sentada no chão e encostada à parede fresca do edifício a dor cravava-me tão fundo que saía em forma das lágrimas que não podiam sair à frente do miúdo e me molhavam a camisola como se tivesse acabado de lavar a cara.
O vazio escavava-me um buraco no peito que crescia à medida que a dor se ocupava de me tomar o corpo por inteiro.
Acabava-se o cigarro e a dor silenciava-se no caminho até ao quarto do hospital. Mantinha-se quietinha até um novo cigarro me ser permitido lá fora. Os cigarros alimentaram-me durante estes quinze dias de hospital. A comida não entrava em mim se o meu filho não podia também ingeri-la. Era como um pacto de fome que o meu corpo de mãe tinha feito com o corpo do meu filho. Quando ele se pudesse alimentar, o meu corpo também se iria permitir a esse luxo.

O meu filho voltou a comer e reaprendeu a andar no dia em que saiu do hospital. Parecia um bebé a degustar a comida. E a andar com o reflexo da marcha, tal elevava os joelhos e palmilhava o chão.

A minha mãe safou-se sem que eu pudesse estar ali a acompanhá-la naquela aflição. Mas o sacana do cancro voltou a atacá-la. Desta vez no cólon e quase, quase a levá-la.
No dia em que foi operada pela segunda vez, e de urgência, ao intestino, pensei que ia morrer. Ela e eu. Julguei que, pronto, era daquela que vez que o buraco que o meu filho doente tinha escavado no meu peito atirava tudo cá para fora e tomava posse de mim por inteiro. Quase me vomitei de dor. Parecia que todas as aflições acumuladas queriam sair-me à força pela boca.
A minha mãe sofreu a rodos,  num processo que durou uns bons anos.
Desde 2006 que andamos nisto. Digo andamos, porque eu comecei e ela continuou. Continuamos, porque esta espada sobre as nossas cabeças continua por cá, pendente.

Estranho não nos apercebermos da imensidão de sofrimento quando o vivemos.
É como se o instinto de sobrevivência se lhe sobrepusesse. Naquele momento, temos que ultrapassar aquilo e só depois, às vezes anos volvidos, vem o entendimento, a percepção que estivemos no limiar da loucura e que, incrivelmente, permanecemos lúcidos.

Mensagens populares deste blogue

O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Afectos e machismo

Temos um PR adorado pelos seus abraços e beijinhos;Temos um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que cita a Bíblia para desculpar a violência doméstica exercida sobre uma mulher adúltera.

Proponho o seguinte exercício: - Imaginar que o PR era uma mulher que investia em abraços e beijinhos aos populares; - Imaginar que o acórdão desculpava a violência doméstica exercida sobre um homem adúltero.
Que resultado obteríamos deste exercício? Calculo que surgiria a teoria de que a PR seria uma promíscua, carente de afectos, ou que se estaria a "atirar" a todo homem que lhe aparecesse à frente...Calculo que o homem agredido seria achincalhado por permitir sofrer violência doméstica por parte de uma mulher e que, em simultâneo, seria perdoado do adultério, tanto por ter uma mulher violenta, quanto por ter "carne fraca"... Enquanto condicionarmos a nossa avaliação das situações pelos géneros dos intervenientes, estaremos sempre em desigualdade. Enquanto não conseguirmos separar c…