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Urgência de humor

Descobri que a grande muralha que me separa de muitos outros é a falta de sentido de humor. Comunicar com quem não sabe rir, é-me quase impossível. Pode ser deficiência minha, não excluo de todo essa possibilidade, mas vejo-a como uma falha desses outros.
A incapacidade de nos rirmos de nós próprios, das situações e até das outras pessoas é penosa, porque nos impede de elevar o espírito a níveis de sarcasmo hilariantes.

Aprendi o humor com um ex-namorado da minha mãe. Apareceu-me numa altura da vida em que eu ainda absorvia tudo e absorvi-lhe o humor. Por vezes, cansada de tanto rir, por vezes desejando que falasse um bocadinho a sério, mas absorvendo-lhe sempre a capacidade de perverter qualquer assunto. Aprendi isso com ele e muito mais. Na verdade, foi-me pai muitas vezes e continua a ser um pilar na orientação estratégica da minha vida. Talvez por isso, o humor me seja tão necessário. Talvez me ajude a orientar os pontos cruciais das questões que me vão aparecendo a cada esquina, a cada passo, a cada inspiração.

Um tempo depois, surgiu-me o pai do J. que também adora corromper os padrões da seriedade. Não só os corrompe, como os rasga e os arrasta pelos cabelos até à exaustão, chegando a conseguir adicionar uma mistura de urina e lágrimas ao riso de quem com ele integra verdadeiras orgias de escárnio.

Há uma urgência de humor, riso e perversão que se me entranha nos dias.
Aos assuntos sérios reverto-os em sarcasmo. Gosto de os adornar com parvoíces, diminuindo-os e tornando-os insignificantes. Acho eu que os consigo tornar insignificantes. Se não, encho-os de matéria que me eleva o astral e me ajuda a combater a depressão.

Sou atreita a depressões, apesar de nunca acabar por lhes ceder por completo. Injecto-lhes ironia e tento esgotar-lhes as amarras do sofrimento. Tento. Porque me sinto muitas vezes com um pé à beira do precipício, à espera da rabanada de vento que me vai desequilibrar.
Não são poucas as ocasiões em que bastava uma aragem para me entornar no abismo. Porém, não sei bem como, imerjo dos confins da tristeza com um sorriso nos lábios, meio tonto, é certo, mas um sorriso ou, até, mesmo uma gargalhada.
É o humor que me dá a mão e me traz à realidade. Uma realidade não tão negra como eu a pintei, que até tem a sua graça, e que me é urgente, tão urgente quanto o humor.

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O meu pai

Lembro-me de, aos 15 anos, ter amigos com pais com idades entre os 50/60 anos. Olhava para eles e pensava "fogo, os pais deles são tão velhos".
O meu pai tinha 36 anos quando eu tinha 15 e os dos meus amigos tinham idades próximas da dele agora. O meu pai descobriu esta coisa da parentalidade aos 21. Quando fiz 21, ele só tinha 41, quase 42.

Hoje, faz 62 anos e sou eu que tenho 41. A diferença de idades continua a mesma, mas sinto-me mais próxima dele. Mais próxima em idade e mais próxima fisicamente.

Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Discutimos que nos fartamos, porque adoramos uma boa discussão. Um diz preto e o outro diz branco. Raramente, chegamos ao cinzento, porque somos igualmente casmurros.

O meu pai esteve longe muito tempo. Tempo demais. Até nas razões do que nos distanciou discordamos. Porém, concordamos que devíamos ter estado sempre mais perto.

Em pequena, era incapaz de lhe perdoar a distância. Aceitava-a simplesmente, mas com uma mágoa maior do que eu.

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…

Método científico

A propósito do vídeo abaixo que vi no Facebook, lembrei-me de vos contar duas ou três situações que aconteceram comigo na minha última ida ao Amoreiras, relacionadas com o nível de educação a que lá costumo assistir.


Antes, faço uma pequena introdução para que melhor entendam onde quero chegar.
Costumo ir ao cinema a centros comerciais, pois, além de já quase não haver cinemas só cinemas, vou atrás do filme que me apetece ver e, por isso, não tenho um sítio fixo e ando quase aleatoriamente por esses antros de consumo, Lisboa fora, no encalço do lugar mais barato para ver determinado filme. Restam-me, por vezes, locais não tão baratos, mas que são os únicos onde o filme passa ou são os que têm o horário que me dá mais jeito.


No domingo passado, calhou ir ao Amoreiras. Já lá tínhamos ido noutras ocasiões e, confesso-vos, não é um dos locais que goste especialmente de ir ou estar. Aquilo é muito mal frequentado. Dá a ideia que é um local que atrai gente mal educada...
Quem conhece este centr…

Espaços vagos

O luto não se faz só pelas pessoas que nos faltam e que se vão pelo fim da vida. Faz-se também e amiúde por aquilo que vamos perdendo: a paz, a realização pessoal, os sítios em que nos sentimos bem e que temos de abandonar, os ambientes, os cheiros. Perdemos bocados de nós à medida que vamos ganhando outros ou transmutando os que tínhamos.

Há uma necessidade de luto não só na morte, mas na vida. É preciso o silêncio, a auto-comiseração, a dor profunda que nos permite emergir renovados e abertos ao que vem a seguir. Se não deixamos ir aquilo que nos sai da pele e da alma, dificilmente conseguimos arranjar espaço para aquilo que se segue. Somos limitados em espaço, temos pouco terreno para muitas coisas e enchemos o que temos com aquilo que nos preenche de verdade.
Ao contrário do que nos parece, a perda faz-nos bem. Faz-nos evoluir, torna-nos mais fortes e permite-nos valorizar tanto o que se foi, quanto o que virá. Só os espaços vagos se podem ocupar e se não os ocupamos com aquilo qu…