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O palco

Do trabalho ligado às redes sociais, da análise de comportamentos e tendências, do meu lugar recôndito na plateia a que assisto às interpretações de um imenso leque de actores, tenho constatado que todos ganhámos um novo palco. Pequeno, é certo, mas suficiente para que encarnemos personagens diárias e fiquemos à espera dos aplausos.

No palco da vida somos mais espontâneos, exigentes, verdadeiros. No palco das redes sociais somos actores, plateia e os nossos próprios lobbies. Vivemos à espera da notificação que nos aplaude e gostamos do que é nosso ou a nós diz respeito.

Dos presos políticos em Angola e sua libertação, pouco queremos saber. Dos mortos no Bangladesh, dos atentados em Istambul, pouco nos importamos. É lá longe e não nos diz, directamente, respeito.
Todos os dias morre gente por aí. Mas se o gatinho do vizinho partiu desta para melhor, atiramos-lhe um "RIP" sentido e choroso.

O gatinho como as vítimas do terrorismo em França. Estes, sim, dizem-nos respeito, porque temos lá um ou dois familiares emigrados, porque já fomos à Torre Eiffel e gostámos muito e porque somos todos Charlies e os Charlies querem-se unidos.

Gostamos de nos ver espelhados nos olhos dos outros. Se falam de nós, se aparecemos nas fotografias, se a nossa imagem é projectada para outros palcos, isso sim, interessa, preocupa-nos. Queremos que nos digam que estamos certos, que somos bonitos e que tocamos os limites da bondade. Queremos que nos aprovem e nos venerem, que nos lambam as botas e que façam vénias à nossa passagem. Queremos permanecer em palco e que se encha a plateia.

E esquecemo-nos, realmente, de nós. Do que temos dentro e não se vê. Do que sentimos e de pensar. Cerramos a linha do pensamento porque isso nos dá trabalho e aborrece; porque isso nos faz sair do papel que interpretamos. Cortamos a empatia com o que não nos é, particularmente, próximo, porque vivemos à espera da crítica positiva ao nosso espectáculo.

Estamos a esvaziar-nos sem sequer nos enchermos com a personagem que escolhemos. Estamos ocos e o eco são as palmas que esperamos dos outros. Vivemos para as palmas e para o palco. Um palco tão vazio quanto nós.

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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