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Desamor

O amor torna-nos maiores. Crescemos à medida que somos capazes de amar. É o amor que nos faz melhores. Melhores amantes, melhores pais, melhores filhos, melhores pessoas. Melhores.
O amor não é uma ilusão. É concreto.

Vejo um mundo despojado de amor. Cheio de ódio. O ódio está a comandá-lo, a comandar-nos. O ódio e o medo.
A vitória no Euro trouxe, junto com a adoração exacerbada aos atletas portugueses, o ódio aos franceses. A selecção francesa foi estraçalhada nas redes sociais. Difamada, mal-tratada. As pessoas quiseram atirar-lhes o "caneco" às ventas. Depois, camuflaram o veneno em ternura pelo menino que consolou o adepto francês, pensando "além de sermos melhores no futebol, também somos melhores em sentimentos. Vêem como somos tão melhores do que vocês, franceses do cara$&/"%?"

O mundo e o amor estão em perigo.
Atentados terroristas em todo o lado. De repente, odeia-se os franceses e, logo a seguir, tem-se-lhes piedade.
Armas e mortes. Torturas. Autoritarismo. Desrespeito. Desprezo. Desprezo, tanto desprezo.
Deixam-se morrer milhares de pessoas nas águas do mediterrâneo... Matam-se crianças, negros, homossexuais, polícias e ladrões. Mata-se indiscriminadamente. Por nada. Para nada.
As armas despejam ódio para os dois lados. O tiro sai pelo cano e pela culatra. Sempre.

Pendemos aos extremos. Ou somos contra ou somos a favor. Já nem pensamos em prós e contras. Descaímos para um dos lados. Só. Porque não temos tempo para assimilar toda a informação que nos cai no colo; porque nos cai no colo um só tipo de informação; porque nos demitimos de pensar ou porque simplesmente não nos apetece.
Na Era da informação, voltámos a ser seres irracionais. Movemo-nos ao sabor do vento. No fundo, andamos à deriva. Deixámos de viver. Ilustramos a nossas vidas com fotografias de todos os lugares que pisámos. E só os pisámos realmente. Não os vivemos, não nos demos aos lugares que pisámos, não aprendemos nada com eles. Fotografámo-los. Só. E roubámo-lhes o encanto, desacreditando-os quando não os conseguimos ver.
Na verdade, nós não estamos nas fotografias. Na verdade, nós não estamos em lado nenhum. Somos corpos a deambular pelo espaço que tocamos. E destilamos ódios. Dizemos mal de tudo e todos. Insurgimo-nos como se fossemos agir. Mas não agimos. Paramos a olhar para o telemóvel, rasgamos um sorriso e clicamos aquilo que gostaríamos de ser. Mas não somos.

Estamos vazios de amor, de pensamento, de raciocínio. E temos medo. Temos medo de tudo e de todos. Somos a nossa própria censura. Censurámo-nos no momento em que deixámos de lutar, de ver, de ouvir, de sentir, de pensar, de viver. Estamo-nos a tornar autómatos de nós próprios.

Somos a nossa própria fotografia, estampada numa qualquer rede social, cheia de likes e vazia de amor. E vazia de nós.

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A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
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