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Centro de quê?

Há mais de um ano que trabalho sem parar num projecto no qual acredito. Trabalho dia e noite, normalmente mais noites do que dias.
Ainda não recebi um tostão e já gastei alguns neste projecto. Mas continuo a acreditar nele. Nele e em mim. Porque, apesar de não ganhar um tostão com o meu esforço, não desisti de viver. Porque, ao contrário do que se possa pensar, não vivo para as férias, para festas, para os fins-de-semana. Provavelmente, sou demasiado ambiciosa em pensar em viver para mim todos os dias e em querer fazer aquilo que gosto e viver daquilo que gosto de fazer. Mas, infelizmente, também tenho que comer para continuar a viver. Tenho que vestir e respirar. E, hoje, tudo isso custa dinheiro. Por isso, procuro empregos, envio e-mails e candidato-me a lugares de que não gosto. Porque preciso de subsistir, porque preciso de sobreviver. Porque amo a liberdade e a independência e já vivo há demasiado tempo dependente financeiramente.

Tenho 41 anos e não há empregos para velhas como eu. Nem para velhas, nem para novos. Na realidade não há empregos. Há exploração, abuso, trapaças...

Estou desempregada há tempo suficiente para já ter encontrado de tudo. E as piores coisas que fui encontrando vêm de onde seria menos provável depararmo-nos com desrespeito, abuso, exploração, trapaças. O pior local para um desempregado é um Centro de Emprego. Além de nos tratarem como cidadãos de segunda categoria, respondem-nos mal, obrigam-nos a apresentações periódicas como se fossemos prisioneiros (sim, já sei que foi aprovada uma lei para acabar com as apresentações, felizmente), obrigam-nos a frequentar cursos que não servem para nada, a não ser justificar gastos de dinheiros públicos, pois nem sequer se faz uma relação com o percurso profissional das pessoas que os frequentam ou com os seus planos de procura de emprego, ou, até com cursos que se tiram por iniciativa própria.
Ameaçam-nos com a anulação da inscrição no Centro de Emprego se nos negamos a fazer o que nos obrigam, e, anulada a inscrição, saímos das estatísticas e baixamos as taxas de desemprego, perdemos o acesso a programas que facilitam as entidades empregadoras de nos contratarem e ficamos impedidos de nos reinscrevermos por um período de 90 dias.

Se este tratamento é mau e improdutivo na intenção de empregar desempregados, pior ainda são as ofertas de emprego que surgem na plataforma da dita instituição. (Algumas bem piores do que as dos sites de emprego comuns).
Lá, há ofertas de emprego para licenciados, técnicos e especialistas com ordenados iguais aos que se oferece a empregados domésticos com o 4º ano: 530€.
Isto devia ser terminantemente proibido, ainda mais numa plataforma estatal. (Deviam nivelar-se os salários por habilitações, por baixo e por cima. Um licenciado, não devia receber menos do que x nem ganhar mais do que y. E por aí adiante, conforme as habilitações necessárias para determinada função).

Andou o Estado, e o próprio trabalhador, a gastar dinheiro e tempo para dar formação às pessoas para os empregadores lhes pagarem o salários mínimo? É para esta desvalorização da mão-de-obra, pelo mercado de trabalho com o conluio do IEFP, que se anda a estudar anos a fio?

Como se pretende empregar, assim, as pessoas? Como queremos ter profissionais competentes e um país a evoluir e a recuperar economicamente? É pela exploração dos trabalhadores? É colocando empregados a fazer o que não gostam, e como se isso já não fosse suficiente para baixar a produtividade, a receber salários miseráveis para as suas habilitações?

Pois eu não percebo nada disto. Afinal sou só mais uma desempregada.

Continua AQUI.

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