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Há um "quê" de machismo na adopção da linguagem inclusiva

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A linguagem inclusiva visa não discriminar as mulheres pelo uso do género masculino para generalizar um todo, do qual há mulheres que o compõem.
A evolução da linguagem arrastou-se por vários períodos em que os homens eram tidos como pessoas e as mulheres como seus acessórios.
A linguagem, assim como a humanidade, à medida que se foi desenvolvendo, foi passando a incluir as mulheres nos plurais, nos grupos, no todo.

Hoje, as mulheres fazem parte do todo e deixaram de ser acessórios (não em todo o lado, mas na sua maioria). "O requerente" inclui "a requerente", "o Homem" designa a Humanidade que integra homens e mulheres, coisa que há alguns anos não acontecia - as mulheres não eram, sequer, consideradas quanto mais incluídas no que quer que seja.

Partir-se do princípio que é alterando as designações ou passando a utilizar os dois géneros no mesmo sujeito de uma frase que se incluiu as mulheres e se deixa de as discriminar parece-me uma completa aberração. Primeiro, porque se complica a linguagem; segundo, porque quem o faz não deixa de utilizar aquela nota de cavalheirismo bacoco que é designar primeiro as "senhoras" e só depois os "homens": "todas e todos", "deputadas e deputados", etc., etc... Além de que se a linguagem é inclusiva, ela deve incluir e não excluir. Se estamos a querer incluir, porque discriminamos os dois sexos? Porque temos a comiseração parva para com as "miseráveis mulheres" nomeando-as em primeiro lugar?

Se queremos incluir e igualar, porque não acabamos antes com os "homens" e as "senhoras" nas portas das casas-de-banho e passamos a ter "homens" e "mulheres" ou "senhoras" e "senhores"?
Se queremos igualar porque não passamos aleatoriamente uns à frente dos outros em vez de os homens terem de dar passagem sempre às "senhoras"?
Porque distinguimos "senhoras" de "mulheres" e achamos que as "senhoras" merecem um maior cuidado? (Já para não falar que consideramos "um senhor" aquele que nos serve com solicitude exagerada e "homenzeco" aquele que não nos cumprimenta com uma vénia).
Porque ainda fazemos questão que um homem nos abra a porta ou se levante quando chegamos?
Porque ainda aceitamos esta veneração forçada cavalheiresca como recompensa da desconsideração que sofremos durante séculos?

Se há coisa mais discriminatória e machista é o cavalheirismo que obriga os homens a "delicadezas" para provarem reverência às "senhoras" e para se afastarem do estereótipo do homem das cavernas, levando-os a comportamentos sem qualquer profundidade afectiva ou verdade. Pior que o cavalheirismo genuíno só mesmo o cavalheirismo transvestido de inclusão e esse é o "quê" que pontua muita da linguagem dita "inclusiva".

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