Avançar para o conteúdo principal

Ainda há pouco me cabia no colo

O meu filho fez 12 anos. Ainda há pouco me cabia no colo e agora confundo as suas roupas com as do pai, quando as apanho do estendal.
Olho para ele e penso "porra, já está um homenzinho!" 
Já não temos as nossas conversas pré-sono, agora deita-se sozinho e devora livros da Agatha Christie antes de dormir. Lembro-me tão bem quando era eu que os lia... E agora é ele que investiga os casos com o Poirot. Porra, como a vida corre depressa!
Já não falamos antes de dormir, mas continuamos a conversar, especialmente nas viagens de carro. Entre a partida e o destino viajamos pelo espaço. Quer saber o significado da vida e a extensão do universo. Coloca-me dúvidas que também tenho, interroga-se sobre as mesmas coisas do que eu e já não tenho sempre respostas para lhe dar. Digo-lhe tantas vezes que não sei que, qualquer dia, deixa de me perguntar. São as asas do crescimento que o vão levando para longe. E eu fico ali a vê-lo ir, deliciada. 
Quando me responde à bruta, trago-o de volta para o meu colo e mostro-lhe que ainda sou a sua mãe. Deixo-o ir e faço-o regressar como fazem as mães dos adolescentes. É uma nova fase da maternidade que vou aprendendo com ele, ao mesmo tempo que ele aprende a ser adulto. 
Sabe mais do que eu sobre alguns temas. Já há assuntos que é por ele que me actualizo. Ainda há pouco me cabia no colo...
E, no entanto, debate o universo comigo. E tem sede de aprender a vida. 
Lembro-me de mim assim, a sorver cada dia, com fome do futuro e da liberdade. É por isso que abro dedos e lhe largo a mão quando sinto que precisa de ir sozinho. E fico à escuta, com medo de o ouvir cair, com o coração em silêncio para que ao mínimo ruído possa correr na sua direcção. Mas às vezes as pernas não respondem ao cérebro em tempo útil, e deixo-o só por sua conta. 
Quando regressa de sorriso rasgado, o meu coração volta bater e sei que tudo correu bem. Quando se recolhe no meu colo, cheio de dúvidas, sei que devia ter corrido mais depressa que o pensamento. Ou que não, que as contrariedades também ensinam a viver. Mas fico-lhe a faltar. Fico a fazer-lhe a falta que as mães sentem se não estão. 
Sei que tem janelas a abrirem-se-lhe na frente e que o horizonte é infinito. Tento espreitar para medir a altura e para que, através do olhos dele, veja a mesmas coisas do que ele. Mas quando olho, só revejo as minhas próprias janelas que vão batendo ao sabor vento, ditado pelas minhas tempestades. E é aí que me vejo finita na capacidade de o acompanhar pelas ruelas da adolescência, que entre becos e avenidas se define pelos passos que não são os meus. E vejo-me queda, resumida à tarefa de abrir o colo sempre que ele dele precisar. 
Fico aí, à espera, desejosa que o meu abraço lhe sobeje sempre.

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

Marcadores #5

Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou: - Como te sentes hoje? - Mais ou menos. Agora, não tenho dores. - Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa? - Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar. - Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer. Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela. - Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada. - Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho: - Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr? Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não es…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…