Avançar para o conteúdo principal

A Honra e os quadros

Há uns tempos comentei este texto, que já tem uns aninhos, da Rita Ferro Alvim sobre os Quadros de Honra. Como voltou a ser muito comentado, fui recebendo notificações no e-mail com as opiniões de quem por lá foi passando.
Volto a este assunto (que penso já ter abordado por aqui, mas que não me apetece ir procurar) porque me começou a fazer impressão os comentários que foram fazendo ao texto da Rita.
Desde chamarem-na invejosa até dizerem que a ausência de Quadros de Honra promove a mediocridade, fui lendo de tudo.

Concordo com a Rita. Acho os Quadros de Honra uma treta.
E não é por ser invejosa ou mediocre (que até posso ser noutros assuntos, mas não neste caso) é por os achar mesmo uma treta. Primeiro, porque não servem para nada a não ser para promover uma espécie de competiçãozinha irritante entre os miúdos. Depois, porque só têm em conta as notas dos alunos e todos sabemos que as notas não querem dizer grande coisa.
Se fossem capazes de medir a evolução dos alunos ou o esforço, até os podia achar de algum valor. Assim, acho-os pequeninos, fraquinhos mesmo, e uma perfeita fantochada.
Podem vir cá chamar-me o que quiserem que até sei do que estou a falar, porque o meu filho foi lá receber o papelinho todos os anos e mesmo assim o papelinho ainda não me convenceu.
O miúdo até gosta daquilo, não vou negar, mas parece-me que é mais a sua veia teatral, que o impele a saltar para tudo o que é palco, do que pelo suposto reconhecimento das suas qualidades. Até porque as suas qualidades não são reconhecidas pela escola...

A escola não está preparada para ver os miúdos. Há qualidades que a escola não enxerga de maneira nenhuma por não ver quem é suposto "educar". Vê notas, pontuações, rankings, directivas do ministério, pais que gritam e lhe mete medo, alunos que lhe responde mal. Mas ver os miúdos? Não vê.

A culpa não é dela, é só porque não está treinada. Ver os miúdos exigiria, em primeiro lugar, abrir os olhos (que é coisa difícil para a maior parte das pessoas, quanto mais para uma instituição como a escola); em segundo lugar precisaria de ter turmas mais pequenas e professores mais satisfeitos com o seu trabalho e, por fim, gente mais competente (quando falo em competência não falo em canudos nem me resumo aos professores, mas em valores humanos, carácter e atenção de todo o pessoal que lida pessoas em desenvolvimento).
A escola precisa urgentemente de gente mais competente e de abrir os olhos. Se o fizesse, chegaria facilmente aos alunos e conseguiria perceber como aprendem para os poder ensinar. Não se ensina ninguém fazendo debitar matéria em testes de cruzinhas. Ensina-se criando o gosto de aprender e estimulando a curiosidade, observação e sentido crítico. De preferência por esta ordem. E não é tão difícil quanto parece, já que o botão de ensino é no mesmo sítio do de aprender.

Na verdade, acho que nem o meu filho nem qualquer outro aluno só com notas altas, deva estar no Quadro de Honra que não avalia senão quantificações e que de Honra nada conhece.

O meu filho assim como tantos outros miúdos, que até podem ter notas baixinhas, deviam estar no Quadro com Honra. Pelo esforço, pela evolução que se exigem, pela capacidade de se superarem e corrigirem os próprios erros, pela verdade, a sua verdade, pelo sentido crítico, pela imaginação. Enfim, pela capacidade de crescimento interior, social e humano.

Mas isso é Honra que a escola não consegue ver, quanto mais reconhecer. Infelizmente vai-se ficando pelos quadros.


Mensagens populares deste blogue

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…