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Castigo ou Consequência?

Dizem que os castigos são correctivos; que ensinam as crianças a não cometerem os mesmos erros; que penalizam aos maus comportamentos. Dizem.

Os castigos não servem para nada, senão para revoltar as crianças. Digo eu. Não ensinam nada, chateiam. Chateiam todos: os filhos e os pais. E impregnam a sociedade de vícios nocivos à sua evolução.

As crianças não aprendem nadinha quando são castigadas. Mentira, aprendem que a autoridade é injusta; que a autoridade não está ali senão para as chatear e que a melhor forma de lhes escapar é esconderem bem os erros de maneira a não serem descobertas. Também as ensina a mentir e a terem medo das sanções, tornando-as cobardes e dissimuladas.

Temos os exemplos de inúmeros colegas de trabalho que, ao fazerem asneira no serviço, escondem-na debaixo da mesa para não serem apontados ou castigados.
A sociedade move-se para encobrir falhas, erros, incompetências, acreditando que é na perfeição que está o sucesso. Se calhar até está, mas o sucesso é efémero. É na competência progressivamente construída e na capacidade de assumir e de corrigir os erros que todos tentam encobrir, que está a evolução, a aprendizagem e o profissionalismo. Tanto no trabalho como na vida.

Os castigos são o caminho mais fácil para quem exerce autoridade, porque é difícil agir como a vida, mostrando as consequências dos actos. É difícil, mas não é impossível.
Só as consequências ensinam verdadeiramente. E as consequências não são castigos, são consequências. 
Se não se estuda tem-se negativa. Se se tem negativa tem de se estudar mais para não ter outra vez. Se partimos o brinquedo do amigo temos que lhe arranjar um novo, nem que seja o nosso. São consequências. Não são castigos. 

As crianças entendem as consequências, não entendem os castigos. "Se tive negativa, porque não posso jogar Playstation?", pensam as crianças.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra, a não ser que o tempo que se use a jogar Playstation seja necessário para se estudar mais. Mas aí a consequência de ter negativa também é estudar mais, não é não jogar Playstation. Não jogar Playstation, ou jogar menos, é consequência de se ter de estudar mais, porque não há tempo e não porque se teve negativa.

A recorrente teoria dos castigos "foste mau, por isso ficas sem uma coisa de que gostas muito" é injusta. E falaciosa. Primeiro, porque as crianças não são más, têm atitudes más, ou melhor, têm atitudes incorrectas que são incorrectas especialmente para elas próprias. São estas atitudes que devemos corrigir. Não porque o mundo as penaliza, mas porque as atitudes incorrectas lhes fazem mal, a elas, crianças, e lhes trazem consequências igualmente negativas.

"Ai, eu fui castigado imensas vezes em criança e não me fez mal nenhum!". Fez. Tanto fez que temos uma sociedade mentirosa e dissimulada, incapaz de assumir os erros ou de os corrigir que, em vez disso, esconde-os debaixo do tapete e assobia para o lado; é, também, por isso que este país tem tanta gente perita na canção do bandido, para encobrir o mal feito e atirar areia para os olhos dos outros.

É esta sociedade constituída por pessoas que foram castigadas em crianças que, em vez de louvar os "loucos" que se denunciam e que querem colmatar as falhas, premiando a reconstrução do que ficou lesado, os castiga, humilha e condena. É a castigar as crianças que a sociedade trava a própria evolução, impedindo a correcção dos comportamentos através da aprendizagem e, assim, o desenvolvimento das pessoas tanto por dentro, quanto para fora.

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