Avançar para o conteúdo principal

Isto aqui não é o da Joana!

Imagem DAQUI

A mochila da Joana correu o país inteiro. Toda a gente falou da tralha que a moça levaria na mochila da RTP para uma tal de estância de férias chamada "Campo de Refugiados".
A rapariga só levaria: o Iphone, os phones, o Ipad, as lãs e a agulha, o caderno e os lápis, as jóias, os óculos de sol e mais não sei o quê.
Qual é o problema? Nem me parece muita coisa!
Não entendo tamanho falatório. A única coisa que me parece absurda ali é ela não levar o carregador para o Iphone e Ipad, mas, enfim, ela lá sabe.
(Já o adorado recém-presidente da República levava o carregador. É um rapaz mais esperto ou não teria chegado a presidente da república com tanta facilidade!) 
Quanto à Joana parece-me disparatada tamanha indignação, ainda mais com o caso dos papéis do Panamá por aí aos saltos que, se Deus quiser (até fiquei religiosa de repente, que só mesmo a fé num ser inexistente poderá fazer justiça neste caso), atirará para as prisões deste mundo fora imensa gente que nos anda a roubar a todos há imenso tempo. 
Para ser sincera, parecer-me-ia bem mais normal o povo indignar-se com a roubalheira que poderá agora ser provada (se Deus quiser) do que com as tralhas que a Joana irá levar para um campo de refugiados.
Na verdade, nunca gostei muito da Joana. Gosto do trabalho dela, mas, dizem as más-línguas, a rapariga não é lá muito boa nas relações pessoais e, apesar de não a conhecer pessoalmente, fiquei, assim, meio de pé atrás com ela. Por isso, sentir-me-ia até bem confortável em vir para aqui dizer mal dela. O problema é que não vejo razão para isso. Cada um tem o direito de levar o que quiser para onde quiser. Se ela não roubar nada a ninguém para fugir à guerra, que leve o que lhe der na gana! 
O que me indigna aqui é ver a indignação em massa por causa de uma merda destas. Parece-me que as pessoas não têm mais nada que fazer do que se entreterem com merdices desta espécie. Ainda não consegui perceber se são mesmo estes assuntinhos que as preocupam ou se estas coisinhas servem apenas para as distrair e não terem de pensar em coisas realmente importantes. Das duas, preferia a segunda, apesar de não acreditar muito que esta possa ser a verdadeira razão. 
De uma coisa tenho, praticamente, a certeza: os verdadeiros refugiados estão-se nas tintas para as porcarias que a Joana levaria na mochila para onde quer que fosse. Até porque eles têm muito mais em que pensar.

Mensagens populares deste blogue

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

Marcadores #5

Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou: - Como te sentes hoje? - Mais ou menos. Agora, não tenho dores. - Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa? - Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar. - Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer. Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela. - Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada. - Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho: - Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr? Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não es…

"Bom dia e as melhoras!"

IPO - 9h da manhã

Indicam-me a sala de espera da radiologia. Há uma televisão que vai distraindo as pessoas sentadas, alinhadas, de frente para ela.
Sento-me no sofá por baixo da televisão e de frente para os espectadores pouco atentos às notícias da manhã.
O ar que se respira nas salas de espera do IPO é sempre um pouco solene. Vive-se a incerteza e espera-se o desconhecido. O silêncio e as palavras ditas em murmúrios impregnam o ambiente de uma musicalidade suave. Como se fosse o som de fundo de uma floresta imergida na fatalidade perene.

Chamam-me para o exame. Sigo a "operacional" - como chamam hoje às funcionárias dos hospitais - até ao gabinete onde me devo despir da cintura para cima e vestir a bata branca com centenas de IPOs estampados.
Faço o que me mandam e tiro o piercing do umbigo. Tiro o piercing do umbigo sempre que sou irradiada. Tenho a sensação que o metal do brinco pode projectar as radiações para lugares inusitados se não o fizer. Talvez seja uma crença o…