Avançar para o conteúdo principal

A fuga seria inevitável

Chove lá fora. Os vidros das portas de correr que nos separam do jardim enchem-se de gotas de água. O vento abana as janelas e sente-se-lhe a pressão.
Cá dentro, espera-se a morte. O vento e a chuva tornam-se menores se comparados com o temporal que cá dentro se vive. Temporal interior e silencioso, mas não menos agressivo do que aqueles que levam casas pelo ar e arrancam árvores da terra.
As pessoas sentadas em redor da sala, como que expostas à sua inutilidade, decoram o ambiente de tristeza e solidão.
De vez em quando, as mãos na cara e uns beijos repenicados na testa com cheiro a artifício. Exuberante afecto falso que pretende toscamente interpretar o afago.

O vento lá fora a abanar as árvores com força.
Cá dentro, o tempo a esfumar-se nos dias. E as drogas a toldar a percepção do abandono. Se não fossem as drogas, a fuga seria inevitável.
Há quem procure nas paredes o descanso do olhar; quem apoie a cabeça na almofada equilibrada no braço da cadeira; quem oiça rádio junto ao ouvido; quem veja um programa qualquer na televisão; e há ela, sentada no cadeirão, de olhos semi-cerrados a fingir que não ouve o que dizem dela, como se não estivesse ali. Abre os olhos quando lhe interessa a conversa e fecha-os para ouvir um pouco mais do que não querem que oiça.
Fala como se a vida ainda lhe fosse normal, como se estivesse em casa e acolhesse aquelas visitas. Transporta aventuras do imaginário para a realidade como que para lhe dar um toque de entusiasmo. De outra forma, morreria antes mesmo da morte a vir buscar.

Aproxima-se uma senhora empurrando o seu carrinho. Pergunta se me conhece. Respondo-lhe que não, que nunca nos vimos antes. Estende-me um bocado de chocolate e duas moedas.
- Tome. É para si.
Agradeço recusando. Insiste. Volto a recusar.
- É por ser pouco? - pergunta-me.
Fico embaraçada.
- Não, não. Fica para si. Não se incomode. - respondo.
Dizem-me para aceitar e devolver à funcionária. Na minha indecisão, há quem o faça por mim.
A senhora volta para a sua cadeira e fica ali a revolver a mala, quem sabe à procura de mais alguma coisa para me oferecer.

Ela abre os olhos e diz que passeou de carro no outro dia e que fez pastéis, cento e tal pastéis e que nem os viu porque os comeram todos.
Volta a fechar os olhos e fala-se dela. Diz-se que já não vive na realidade e que, às vezes, bate nos outros com a bengala. Por isso, tiraram-lha.

Duas senhoras, ao fundo da sala, dão as mãos e encostam as cabeças. Preferem-se às fracas representações de ternura que as funcionárias, bondosamente e em esquizofrénicas interpretações, lhes oferecem. O tempo que levam a lidar com pessoas daquela idade, ou a pura insensibilidade, impedem-nas de distinguir velhos de crianças. Tratam-nos de igual forma, negligenciando a sabedoria e maturidade que os anos acumulam e levando-os com elas ao seu ridículo.

Ela pergunta pelo carro. Dizem-lhe que está guardado na garagem. Sossega.
A hora da visita já vai adiantada e temos todos ainda muito que fazer. Despedimo-nos beijando-a e deitando-lhe olhares de pesar. "O que ela foi e como está agora", pensamos em uníssono.
Sorri-nos com carinho e deixa-nos ir às nossas vidas agitadas. Recosta-se na cadeira, fecha os olhos e vai buscar o carro à garagem ou fazer pastéis para aquela gente toda.
É isso ou a fuga seria inevitável.

Mensagens populares deste blogue

O Espelho

Em pequena fui protectora das minorias, dos mal-tratados e dos ofendidos. Costumava juntar-me à mais gorda ou mais feia da turma, aquela menina com quem toda a gente gozava e com quem ninguém gostava de ser visto. Tratava melhor os que eram desprezados e tinha uma atenção especial para com quem levava mais reguadas. Ainda sou um bocado assim, porém não tanto, porque as pessoas  que eu considerava minorias me foram mostrando tantos lados das suas personalidades que deixei de as ver apenas como mal-tratadas, ofendidas e carentes de protecção. Percebi, ao longo dos anos, que somos muito mais do que aquilo que aparentamos. E ainda bem, digo-o hoje.
Olhando para trás, penso que talvez o fizesse por pena de as pessoas não terem as mesmas atenções que os outros, ditos populares, e como que para compensar os males que lhes faziam. 
Olhando depois para dentro de mim, penso que também agia daquela forma para desviar os olhares das minhas próprias fragilidades. Se eu protegesse outros, sentir-me…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


Tenho uma tatuagem no meio do peito

Ontem, no elevador, olhei ao espelho o meu peito que espreitava pelo decote em bico da camisola, e vi-a. "Tenho uma tatuagem no meio do peito", pensei. Geralmente, não a vejo. Faz parte de mim, há dez anos, aquele pontinho meio azulado. Já quase invisível aos meus olhos, pelo contrário, ontem, olhei-a com atenção, porque o tempo já me separa do dia em que ma fizeram e me deixa olhá-la sem ressentimentos. À tatuagem como à cicatriz que trago no pescoço.

A cicatriz foi para tirar o gânglio que confirmou o linfoma. Lembro-me do médico me dizer "vamos fazer uma cicatriz bonitinha. Ainda é nova e vamos conseguir escondê-la na dobra do pescoço. Vai ver que quase não se vai notar". Naquela altura pouco me importava se se ia notar. Entreguei o meu corpo aos médicos como o entrego ao meu homem quando fazemos amor.
"Façam o que quiserem desde que me mantenham viva", pensava. "Cortem e cosam à vontade! Que interessa a estética de um corpo se ele está a morrer?!…

Facebook lovers

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva …