Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2016

Palavras enterradas na dor

Hoje, estou num impasse. Apetece-me tremendamente escrever, mas não há nada que me saia, assim, fluído. Preciso arrancar as palavras que me estão enterradas na dor. Na dor da alma. Dói-me a confiança, as convicções, as certezas, a direcção para onde levar a vida e até a mim própria. Dói-me tudo como se fosse uma parte do meu corpo, assim como a quem dói a cabeça ou os dentes. E não há paracetamol que me valha, porque a dor está na definição e não na sua simples existência. Tomar um comprimido para aclamar o sofrimento não basta, porque o sofrimento existe na ambiguidade, e essa é imensamente lata e difícil de limitar.  É preciso definir e pensar. É preciso pensar muito e o pensamento só ajuda a corroer a indefinição. Por isso as palavras não sabem quais me devem sair. Ficam entaladas entre a dúvida e a incerteza e daí não saem, nem com um grande copo de água garganta abaixo. Acho que hoje não vou escrever. Pronto!

A Bolha

Esta coisa da escrita tornou-se um mal físico. Se passa tempo sem que me entorne no papel, cresce-me uma bolha no peito que só rebenta quando me abro outra vez às palavras.
Maldita bolha que cresce sem parar levando-me ao sufoco. Toma todo o espaço do peito e chega-me ao pescoço até que me trava o ar no caminho para os pulmões.
Em apneia, esperneio por oxigénio que só me entra no despejo da alma em prosa.
Arre bolha maldita que me ocupas o íntimo e desassossegas o espírito!



Os Vampiros

Vampirizam momentos, pessoas, monumentos, arte, paisagem. Vampirizam de telefone em riste, sugam tudo até ao último pingo através daquela caixinha de ecrã brilhante que trazem na mão. Sugam para possuir, sem perceber que só possuem aquilo que vêem, ouvem, entendem. E não vêem, ouvem, entendem aquilo que à bruta tentam subjugar. Devoram violentamente e destroem antes de sorver o que coleccionam e submetem aos seus egos incompletos e sedentos de provas da própria existência. Existem tão somente naquilo que extorquem com o clique do obturador. Vampirizam os pais, os filhos, as árvores, as casas, a comida, os amantes. Vampirizam em desespero atroz até à exaustão.
Os vampiros vivem à beira deles próprios e do mundo. O que não fotografam não existe. Morrem na ausência de momentos captados e de se verem reflectidos em imagens. Só mesmo a imagem da estaca que trazem no peito é que os vampiros não captam.

Isto aqui não é o da Joana!

A mochila da Joana correu o país inteiro. Toda a gente falou da tralha que a moça levaria na mochila da RTP para uma tal de estância de férias chamada "Campo de Refugiados".
A rapariga só levaria: o Iphone, os phones, o Ipad, as lãs e a agulha, o caderno e os lápis, as jóias, os óculos de sol e mais não sei o quê. Qual é o problema? Nem me parece muita coisa! Não entendo tamanho falatório. A única coisa que me parece absurda ali é ela não levar o carregador para o Iphone e Ipad, mas, enfim, ela lá sabe. (Já o adorado recém-presidente da República levava o carregador. É um rapaz mais esperto ou não teria chegado a presidente da república com tanta facilidade!)  Quanto à Joana parece-me disparatada tamanha indignação, ainda mais com o caso dos papéis do Panamá por aí aos saltos que, se Deus quiser (até fiquei religiosa de repente, que só mesmo a fé num ser inexistente poderá fazer justiça neste caso), atirará para as prisões deste mundo fora imensa gente que nos anda a roubar…

A fuga seria inevitável

Chove lá fora. Os vidros das portas de correr que nos separam do jardim enchem-se de gotas de água. O vento abana as janelas e sente-se-lhe a pressão.
Cá dentro, espera-se a morte. O vento e a chuva tornam-se menores se comparados com o temporal que cá dentro se vive. Temporal interior e silencioso, mas não menos agressivo do que aqueles que levam casas pelo ar e arrancam árvores da terra.
As pessoas sentadas em redor da sala, como que expostas à sua inutilidade, decoram o ambiente de tristeza e solidão.
De vez em quando, as mãos na cara e uns beijos repenicados na testa com cheiro a artifício. Exuberante afecto falso que pretende toscamente interpretar o afago.

O vento lá fora a abanar as árvores com força.
Cá dentro, o tempo a esfumar-se nos dias. E as drogas a toldar a percepção do abandono. Se não fossem as drogas, a fuga seria inevitável.
Há quem procure nas paredes o descanso do olhar; quem apoie a cabeça na almofada equilibrada no braço da cadeira; quem oiça rádio junto ao ouvi…