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Tia Adelaide

Lembro-me bem da pele macia, velhinha e enrugada, mas macia e a cheirar a sabonete. Tenho a ideia que todos os velhotes cheiram a sabonete. Talvez os meus velhotes cheirem...

Tivemos pouco tempo juntas. Estiveste presente num curto período da minha vida. Nem tenho bem ideia quando foi que morreste.
Tenho-te como se só eu te conhecesse, não me lembro de nós com outras pessoas. Sempre sós e eu almoçar e a fazer os trabalhos de casa em tua casa. A tua casa era daquelas antigas que lembram os anos 50 e tinha um patiozinho ao fundo. Lembro-me do corredor até ao fundo, à cozinha e ao pátio. E tu velhota com dificuldade em atravessá-lo para ires abrir a porta.

Eu era tão criança... Ainda hoje consigo sentir a sensação de ser criança quando penso na tua casa e em ti. És a lembrança da minha infância, da ingenuidade e da inocência. A sede da descoberta e a incapacidade de compreender certas coisas lembram-me a tua casa. Como se esse lugar fosse mágico e me fisgasse com uma vontade enorme de lá voltar. Fecho os olhos e estou a correr pelo teu corredor fora sem a noção de que se te tocar, podes cair porque tens dificuldade em te mover. É tão ingénua a minha ignorância da tua fragilidade que é quase perdoável; que eu quase me perdoou de não me lembrar de quando morreste...
Às vezes, acho que a minha inocência ficou em tua casa; ficou aí à espera que voltássemos. E não voltámos.

Quero voltar a almoçar contigo, a fazer os trabalhos de casa na tua mesa de madeira escura e a ouvir a tua voz.
Quase a oiço, quando fecho os olhos e vou aí visitar-te.

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Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

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