Avançar para o conteúdo principal

Tia Adelaide

Lembro-me bem da pele macia, velhinha e enrugada, mas macia e a cheirar a sabonete. Tenho a ideia que todos os velhotes cheiram a sabonete. Talvez os meus velhotes cheirem...

Tivemos pouco tempo juntas. Estiveste presente num curto período da minha vida. Nem tenho bem ideia quando foi que morreste.
Tenho-te como se só eu te conhecesse, não me lembro de nós com outras pessoas. Sempre sós e eu almoçar e a fazer os trabalhos de casa em tua casa. A tua casa era daquelas antigas que lembram os anos 50 e tinha um patiozinho ao fundo. Lembro-me do corredor até ao fundo, à cozinha e ao pátio. E tu velhota com dificuldade em atravessá-lo para ires abrir a porta.

Eu era tão criança... Ainda hoje consigo sentir a sensação de ser criança quando penso na tua casa e em ti. És a lembrança da minha infância, da ingenuidade e da inocência. A sede da descoberta e a incapacidade de compreender certas coisas lembram-me a tua casa. Como se esse lugar fosse mágico e me fisgasse com uma vontade enorme de lá voltar. Fecho os olhos e estou a correr pelo teu corredor fora sem a noção de que se te tocar, podes cair porque tens dificuldade em te mover. É tão ingénua a minha ignorância da tua fragilidade que é quase perdoável; que eu quase me perdoou de não me lembrar de quando morreste...
Às vezes, acho que a minha inocência ficou em tua casa; ficou aí à espera que voltássemos. E não voltámos.

Quero voltar a almoçar contigo, a fazer os trabalhos de casa na tua mesa de madeira escura e a ouvir a tua voz.
Quase a oiço, quando fecho os olhos e vou aí visitar-te.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

#metoo ou eu também já vi muita coisa

Já fui bastante assediada, especialmente até aos trinta, trinta e poucos. Acho que, por isso, fui desenvolvendo uma capacidade que me permite notar situações de assédio, ou de simples interesse sexual, à distância. Não só quando sou eu a visada, mas também quando são outras pessoas. Normalmente, reparo no(a) assediador(a) e no(a) assediado(a).

Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo quando eu tinha uns quinze ou dezasseis anos.
Nessa altura eu frequentava amiúde as matinés de uma discoteca aqui da terra. Era miúda e era assim que passávamos as tardes chatas de domingo.
Um dia estava com uma amiga à porta da dita discoteca e houve um puto, mais ou menos da minha idade, que me fez uma proposta: pagava-me uma bebida lá dentro se eu curtisse com ele naquela tarde. Eu, que durante a adolescência tinha fama de antipática e petulante (creio que esta última característica se devia essencialmente à minha altura e timidez que, juntas, me faziam parecer uma pessoa petulante), mandei-o à…

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…