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Tia Adelaide

Lembro-me bem da pele macia, velhinha e enrugada, mas macia e a cheirar a sabonete. Tenho a ideia que todos os velhotes cheiram a sabonete. Talvez os meus velhotes cheirem...

Tivemos pouco tempo juntas. Estiveste presente num curto período da minha vida. Nem tenho bem ideia quando foi que morreste.
Tenho-te como se só eu te conhecesse, não me lembro de nós com outras pessoas. Sempre sós e eu almoçar e a fazer os trabalhos de casa em tua casa. A tua casa era daquelas antigas que lembram os anos 50 e tinha um patiozinho ao fundo. Lembro-me do corredor até ao fundo, à cozinha e ao pátio. E tu velhota com dificuldade em atravessá-lo para ires abrir a porta.

Eu era tão criança... Ainda hoje consigo sentir a sensação de ser criança quando penso na tua casa e em ti. És a lembrança da minha infância, da ingenuidade e da inocência. A sede da descoberta e a incapacidade de compreender certas coisas lembram-me a tua casa. Como se esse lugar fosse mágico e me fisgasse com uma vontade enorme de lá voltar. Fecho os olhos e estou a correr pelo teu corredor fora sem a noção de que se te tocar, podes cair porque tens dificuldade em te mover. É tão ingénua a minha ignorância da tua fragilidade que é quase perdoável; que eu quase me perdoou de não me lembrar de quando morreste...
Às vezes, acho que a minha inocência ficou em tua casa; ficou aí à espera que voltássemos. E não voltámos.

Quero voltar a almoçar contigo, a fazer os trabalhos de casa na tua mesa de madeira escura e a ouvir a tua voz.
Quase a oiço, quando fecho os olhos e vou aí visitar-te.

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