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Querer impotente

Esta noite sonhei que te tinha perdido. Anos sem sonhar e agora isto: todas as noites, sonhos; algumas noites, mais do que um sonho. Esta noite, sonhei que me tinhas desaparecido. Sonhos com os medos impressos. Porquê? Estarei numa fase particularmente medrosa? Ou será da "meia-idade"? Desapareceste, mas reapareceste numa varanda do topo de um prédio no Parque das Nações. O teu pai e eu dissemos-te "não saias daí, vamos aí ter!". Não fomos. Perdemo-nos por becos, escadas e varandas e tu à espera. Como a tua espera me doeu! Queria chegar-te e não conseguia. Só encontrávamos gente de ar suspeito e nem um sinal de ti. Saber-te sozinho, sem nós, deixou-me louca, queria voltar ao ponto de partida em que te vi na varanda do topo do prédio. Mas o caminho era tão longo, era tudo tão distante. E se caísses? E se alguém te levasse? E se te fizessem mal? E nós sem conseguirmos chegar-te...
Acordei para apagar os pensamentos. A sensação de impotência chegava próxima da de quando estiveste naquela cama de hospital. Eu sem conseguir valer-te, chegar-te. Eu sem conseguir nada e tu lá sozinho sem saberes como te queria chegar. E o meu querer impotente. E o meu querer impotente.

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