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Da importunação

Em Agosto esta lei foi aprovada:

"Artigo 170.º
Importunação sexual
Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal."

A comunicação social descobriu em Dezembro e lançou o burburinho, dizendo que a lei que criminaliza o piropo foi aprovada. 

"Piropo - palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; galanteio."

"Galanteio - acto ou efeito de galantear; acto de dirigir elogios a alguém; dito lisonjeador, com o objectivo de agradar ou seduzir; amabilidade; conversa amorosa;
namoro."

Houve grandes discussões nas redes sociais à volta desta questão: gente a defender a lei; gente a exprimir o descontentamento por se dedicarem a aprovar leis destas quando há outras muito mais importantes a ser aprovadas; gente a gritar por liberdade de expressão, alegando que a lei lhe era uma limitação; gente a questionar o que é, ou não, piropo; gente a defender que o piropo não pode morrer; etc., etc...

Por meu lado, estou profundamente agradada com a aprovação desta lei! Estou-me nas tintas para se se refere ou ou não ao piropo. Sei que não refere, mas se referisse não ficaria nada triste. Detesto piropos. De qualquer espécie. 
A importunação sexual, da qual trata esta lei, a que eu (e talvez mais umas tantas pessoas) chamo "piropo porco", ou "nojento", é coisa para ser criminalizada e bem criminalizada!

Como já disse aqui, sou mocinha para o 1,80 m e sempre fui grande. Desde os meus 12, 13 anos que tenho mais de 1,60 m, por isso sempre me acharam mais velha do que eu era na realidade. 
Desde tenra idade que sou abordada com toda a espécie de piropos porcos. E, como toda a gente, também vesti mini-saias que até não me ficavam mal. Vesti mini-saias, calças e tops justos. Vesti, porque sim, porque gostava e acho que tinha todo o direito de vestir o que me apetecesse sem que ninguém me viesse importunar com bocas porcas.

Hoje, tenho mais 12 quilos do que o meu peso ideal. Já não visto mini-saias e adoptei uma forma de andar na rua o mais discreta possível. Não gosto que olhem para mim e a forma como me mexo e visto passou a ser de acordo com essa minha vontade de passar despercebida. Não me sinto bem com os 12 quilos a mais, não me sinto bem quando me vejo ao espelho nua ou quando me dispo em frente ao meu homem. Não gosto das gordurinhas, nem da celulite, mas gosto de já não ser alvo de olhares esfomeados, nem de bocas porcas ou, até, das menos porcas. Gosto que me olhem nos olhos em vez de nas mamas. Gosto mesmo e acho que estes 12 quilos a mais valem esse sossego. 

No outro dia, passei por uma rapariga da minha altura que tinha um vestido justo e curto. Ficava-lhe muito bem. Ela era muito bonita e bem feitinha de corpo e aquele vestido acentuava-lhe a beleza das formas. Cruzei-me com ela e nas costas dela deparei-me com quatro homens de ar babado a segui-la com o olhar. Quatro, contei-os. Fiquei de frente para aqueles quatro homens e nenhum me viu porque a seguiam com olhar. Fui transparente para eles e senti-me incrivelmente bem na minha invisibilidade. Não a invejei nem um bocadinho. Senti-me livre, livre daqueles olhares que tentam entrar na nossa intimidade. Livre de possíveis piropos porcos, de possíveis galanteios que também detesto que mos dirijam.

Sei que há quem goste de galanteios. Não acho que devam ser criminalizados. Ok, são parvos, mas há quem goste e as pessoas estão no direito de se dirigirem parvoíces à vontade desde que ambas estejam de acordo. 

Agora a importunação sexual... acho que foi muito bem criminalizada, porque as pessoas têm o direito de andar na rua livres de qualquer tipo de invasão à sua privacidade. Livres que lhes queiram cair em cima; livres que lhes queiram lamber as partes íntimas; livres de gente que não sabe controlar os instintos mais primários e respeitar os outros. E é por essa liberdade que estou plenamente de acordo com a aprovação desta lei. 

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