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Hoje, véspera de Natal, penso...

Hoje, véspera de Natal, não penso no David Duarte que, com apenas 29 anos, morreu num hospital sem a assistência médica devida por conta das poupanças de um Ministério da Saúde doente. 
Não penso nele, porque sei que deve ter imensa gente que o ama e que não o vai esquecer neste dia, nem nos próximos.
Penso antes em quem comandou esse ministério durante anos e o tornou no que é hoje, um ministério doente. Penso nesse ministro que deve passar a consoada em família, com uma mesa farta em bacalhau, peru e doçaria tradicional, mas sem um pingo de amor ao próximo. Penso na consciência desse homem que, cada vez que der uma dentada num sonho, se poderá lembrar que os sonhos do David já não se irão realizar por sua culpa; que o David já não tem mais sonhos porque ele, ministro da saúde, decidiu gerir a saúde como quem gere uma empresa, sem pensar que o negócio aqui é a vida das pessoas, e não acções ou títulos bancários. 
Foi a vida do David, tal como a de tantos outros doentes, que andou nas mãos deste carniceiro a quem chamam gestor. 
Que consciência permanecerá intacta a tanta morte? Como dormirá este homem que acabou com a vida de tanta gente? 
Penso nele, porque, provavelmente, poucos serão os que o têm no coração e se lembrarão dele hoje...

Hoje, véspera de Natal, e porque é véspera de Natal, tenho pena desta gente... Tenho pena de quem tem pedra no peito. E tenho pena que pessoas assim não vão ter no Natal mais do que uma mesa cheia de comida e uma árvore cheia de presentes...

Hoje, porque é véspera de Natal, tenho pena que haja gente como esta sem mais nada para além daquilo que o dinheiro é capaz de comprar...

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