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Gente dos Lenços

David Cameron a falar na, pouco usual nos hospitais, Sic Notícias. Sentada por baixo da televisão, uma cabeça coberta com um lenço rosa desbotado. O filho ao lado, já adulto, com o dedo a trabalhar no telemóvel. O lenço está atado para o lado do filho. Cai-lhe o resto sobre o ombro a fazer de rabo-de-cavalo de um cabelo que já não tem. 
De vez em quando, olha-me que estou de frente para o David e para ela. Muitos anos de vida e agora isto. Sem cabelo e com um bicho qualquer a comer-lhe as vísceras. Ouve o Cameron sem atenção. Afinal, nem sabe quem ele é. Se estivesse de frente talvez lhe reconhecesse a cara. Agora assim... 
Os pensamentos falam-lhe mais alto do que o primeiro-ministro britânico que está lá no alto sobre a sua cabeça e para quem poucos olham. Como irá correr o exame? E a cozinha deixada por arrumar... Saída à pressa de casa para esta espera... Que sentença lhe estará reservada?
Observa os pés para, de seguida, cruzar o olhar no meu. Há uma compreensão silenciosa nos nossos olhos. Aqui, sempre falámos assim, com os olhos. Na linguagem do IPO não há palavras, apenas olhares.
Entra um homem sem boca. Em lugar dela uma cavidade. Tenta escondê-la com o lenço de papel branco. Todos sabemos que já não está lá, mas fingimos não reparar. Olhamo-lo com cumplicidade apenas nos olhos que vão perdendo o brilho, evitando a cavidade que já foi boca. 
Todos conhecemos aquele brilho que se esvai. Temos olhos que passaram pelo mesmo. Alguns de nós já não se lembram como brilhavam. Já cá andam há muito tempo. É bom sinal. É sinal de que não ficámos pelo caminho. 
Não, nem todos conhecemos o brilho que se ausenta... Os que nunca estiveram doentes disto não falam esta língua, apenas decifram algumas dores através de nós que usamos, ou usámos, lenços. Os olhos deles ainda têm o brilho que se nos foi. São analfabetos nos olhos e de lenços a tapar-lhes a dor.
Sai o lenço rosa agarrado ao filho. Sai trôpego para mais um exame, mas lá vai.
Há um casal que entra com um cãozinho de algibeira ao colo. Podem entrar aqui cães? Uma voz a articular palavras de bebé irrompe o silêncio. São para o cãozinho de algibeira. Penso no quanto detesto gente que articula palavras de bebé aos animais. E aos bebés. Na verdade, detesto gente que fala como bebés. Só os bebés deviam poder falar como bebés. 
O David Cameron dá lugar ao parlamento. Os deputados discutem muito, mas ninguém os ouve. Querem lá saber do que dizem! Quando a saúde está em causa, que se lixe aquela gente do parlamento! Ficam pequeninos, tão pequeninos diante das faltas de bocados de corpo que tapamos com um lenço...
O cãozinho geme a ausência da dona que foi fazer o exame e a senhora que fala à bebé diz "coitadinho, quer a dona, quer?" e eu arrepio-me de desagrado e pouso o olhar nas costas do homem sem boca. Sinto-me tão mais próxima dele do que da bebé, como se só conseguisse encontrar humanidade em nós, nos dos lenços que encobrem um vazio e descobrem o todo da gente.

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