Avançar para o conteúdo principal

#6 Excertos De Uma Coisa Qualquer: Cazé - El Matador

O jantar estava prestes a acabar. A sala cheia de clientes engravatados que intercalavam o manejo silencioso dos talheres com risadas efusivas.
No fundo da sala, mesmo no cantinho, eles dois sentados um em frente ao outro. O ambiente entre eles tinha chegado àquele ponto em que a ausência de palavras incomodava mais do que uma enxurrada delas sem sentido.
Como que para quebrar o constrangimento do momento e enquanto penteava, com os dedos milimetricamente afastados, o cabelo grisalho reflectido na janela atrás dela, Cazé perguntou numa voz dengosa:
- Já escolheste a sobremesa, querida?
- Quero uma mousse de chocolate - respondeu ela olhando os anéis que lhe adornavam os dedos e pensando se ali não caberia mais um.
- Muito bem! - rematou Cazé.
Pediu a mousse e um café ao empregado, olhou-a nos olhos e voltou a pousar a mão sobre a dela. De vez em quando, mexia o indicador e o polegar em jeito de festa. O movimento dos dedos era acompanhado por uma espreitadela ao vidro da janela, onde confirmava se a expressão do seu olhar coincidia com a intensidade das suas acções e palavras.
Ela contemplava-o como a uma obra de arte. Tinha de usar a imaginação para ver o que Cazé fingia esconder debaixo da roupa, mas que trabalhava arduamente todos os dias no ginásio. 
Ele adorava o efeito que tinha sobre mulheres como ela. Sentia-se poderoso sempre que o olhavam daquela maneira; sempre que o ouviam contar detalhadamente as tarefas do dia; sempre que o deixavam notar a ânsia por um novo convite para sair. Nestes momentos, Cazé era rei e a sua presença fazia vibrar o mundo. Ó se fazia!
Acabado o café, tirou o pacote de pastilhas do bolso da camisa. Com um movimento rápido e certeiro atirou uma pastilha para dentro da boca e disse de si para si, enquanto a mascava cheio de vitalidade:

- Cazé, é hoje. Podes ter a certeza que não passa de hoje!

Mensagens populares deste blogue

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

A sesta

Às vezes ainda sinto o cheiro do colchão forrado a plástico impermeável azul do infantário. Volto à sala dos quatro anos, onde, na semi-obscuridade, tento dormir.
Vejo as persianas descidas quase até acima e conto os quadradinhos de luz que saem das duas últimas filas dos estores que ficaram por fechar. Fixo os olhos na luz e na vontade de sair para rua num dia bonito de Verão. Estou aprisionada naquela sala transformada em dormitório infantil e sinto, hoje, a mesma impaciência que sentia pelo fim da hora da sesta.

A Preciosa e a Isabel cochicham junto à porta, enquanto controlam quem ainda não dorme. Estão sentadas nas cadeiras minúsculas e rodeadas por um clarão de luz. Invejo-as por ninguém as obrigar a dormir, por estarem ali na conversa, ao contrário de mim que estou aprisionada no colchão com a cara colada ao plástico azul. Tento descolar-me do colchão, mas o movimento da minha cabeça denunciar-me-ia às educadoras.
Olho para o meu colega do lado, também de quatro anos, que dorme…

Marcadores #5

Ana entrou no quarto, sentou-se na beira da cama, acariciou o rosto da mãe e perguntou: - Como te sentes hoje? - Mais ou menos. Agora, não tenho dores. - Ao menos isso... Queres que te traga alguma coisa? - Não, obrigada. Fica só aqui comigo a conversar. - Fico pois! – disse enquanto massajava a mão da mãe para a aquecer. Ana visitava Cármen diariamente. Aparecia geralmente ao fim do dia, porque trabalhava até tarde. Detestava só sair do trabalho depois do sol-posto, especialmente agora que a mãe precisava tanto dela. - Dormiste bem? – perguntou sem lhe lagar a mão gelada. - Sim, tenho a sensação – parou para respirar - que consegui dormir algumas horas seguidas – continuou a custo. Acariciou a mão da filha como se ainda fosse uma mão pequenina que poderia guardar dentro da sua. Observou-lhe o rosto com ternura e articulou as palavras devagarinho: - Filha, nunca mais me falaste do teu trabalho. Como está a correr? Ana resumiu as últimas semanas de trabalho. Falou dos colegas, que ainda não es…

#metoo ou eu também já vi muita coisa

Já fui bastante assediada, especialmente até aos trinta, trinta e poucos. Acho que, por isso, fui desenvolvendo uma capacidade que me permite notar situações de assédio, ou de simples interesse sexual, à distância. Não só quando sou eu a visada, mas também quando são outras pessoas. Normalmente, reparo no(a) assediador(a) e no(a) assediado(a).

Vou contar-vos uma história que aconteceu comigo quando eu tinha uns quinze ou dezasseis anos.
Nessa altura eu frequentava amiúde as matinés de uma discoteca aqui da terra. Era miúda e era assim que passávamos as tardes chatas de domingo.
Um dia estava com uma amiga à porta da dita discoteca e houve um puto, mais ou menos da minha idade, que me fez uma proposta: pagava-me uma bebida lá dentro se eu curtisse com ele naquela tarde. Eu, que durante a adolescência tinha fama de antipática e petulante (creio que esta última característica se devia essencialmente à minha altura e timidez que, juntas, me faziam parecer uma pessoa petulante), mandei-o à…