Avançar para o conteúdo principal

Proibição e Educação

"O mais fácil é proibir."
Em tempos, quando me dei ao trabalho, ou ao prazer, de me dedicar a analisar comportamentos humanos, nomeadamente de professores, pais, educadores, etc., reparei que a lei do menor esforço anda, geralmente, de mãos dadas com as proibições. Proibir é o mais fácil: não há explicações a dar, não há intenção de educar, ou de justificar o porquê de uma causa surtir num determinado efeito. Nada. Proíbe-se e está feito. Se não se respeitar a proibição é-se sancionado, ponto final parágrafo. Vai-se de castigo, leva-se uma palmada, ou qualquer outra coisa que faça uma mossa idêntica à falha cometida. Assunto arrumado, não se fala mais nisso.
Ora eu sou teimosa e detesto castigos. E só dou palmadas se achar que o meu filho precisa de um abanão para estar mais atento ao que lhe quero dizer. Sim, admito, dou palmadas de vez quando. Muito raramente, porque não lhes vejo grande utilidade. Prefiro abrir as portas da consciência dos próprios actos do que abrir a mão e espetar um tabefe ao miúdo. 
Além de me parecer uma atitude mais útil, confesso que vislumbrar a compreensão da causa / efeito nos olhos do meu filho e o entendimento de uma parte importante da vida me dá maior satisfação do que o ver chorar por lhe doer o rabo. Na verdade, as palmadas que lhe dei, doeram-me sempre mais a mim do que a ele e, se não fosse por mais nada senão para proteger este coração demasiado sensível de mãe, evito magoar o meu filho seja com as mãos, seja com as palavras ou com castigos. Por isso, não dou a mão à preguiça e sou, amiúde, chata p'ra caraças. Explico tudo e mais alguma coisa e mostro que os efeitos das nossas acções não falham, e, infelizmente, nem sempre tardam. Gasto tempo a explicar-lhe as coisas, gasto tempo com o assunto, mas asseguro-me de que a mensagem passou e de que ele aprendeu alguma coisa com o erro, a falha ou a experiência, ou como lhe queiram chamar. Só assim me parece que serviu de alguma coisa, só assim vejo que aprendeu, que cresceu.
Mas às vezes, tenho que deixar o erro acontecer e ficar à espera que ele ponha o pé no buraco para aprender a olhar para o chão - para ser sincera, esta é a parte que mais me custa, mas nem por isso a acho menos importante. Antes pelo contrário, acho-a das mais importantes e decisivas para o crescimento saudável das crianças e, parece-me que andamos todos a querer saltar esta parte.
"Ah e tal, proibimos o consumo de álcool e eles já não se embebedam"; "ah e tal, controlamos as saídas da escola através de cartõezinhos electrónicos e eles já não saem da escola para irem fazer asneiras"; "ah e tal, damos-lhes uma PSP cheia de jogos giros e educativos e eles já não se distraem com coisas potencialmente perigosas como drogas e coisas dessas que viciam muito".
Explicar que há coisas que lhes fazerem mal? "Oh não, não é preciso que eles nem lhes vão chegar perto!" Deixá-los queimar os dedos para perceberem que o fogo queima? "Oh não, não é preciso que eles nunca vão usar isqueiro, porque estão proibidos de fumar e o fogão é de vitrocerâmica"

Mas um dia a bolha rebenta e eles saem lá de dentro virgens para uma vida cheia de coisas novas (boas e más) e caem no primeiro buraco que lhes aparece, porque não fazem ideia que o chão pode ter buracos. Não sabem que, além dos jogos, o álcool e o tabaco também viciam; que a escola existe fora dos muros e da porta; que o lume queima e que há gente má que, às vezes, faz mal a outras gentes.

Nesse dia, o fácil torna-se difícil. Muito difícil.

Mensagens populares deste blogue

Vida eterna

Passou algum tempo desde a última vez que por aqui escrevi, mas não morri. Continuo viva.
Andei meio moribunda por uns tempos. Hoje estou melhor, sem estar completamente curada.

Uma depressão entrou-me cérebro adentro, matou-me os sonhos e adormeceu-me a vontade de viver. Desejei enfiar-me no escuro dos lençóis para a eternidade, quis morrer muitas vezes, pensei em formas de terminar com tudo.
Fui ao médico, aos médicos. Comecei a tomar medicação e voltei a sonhar à custa dos comprimidos para dormir. Agora já não tomo esses, estou apenas com os que me ajudam a levantar da cama, a encarar o dia e a minimizar os problemas.
Deixei de tremer e de suar de nervos, a ansiedade foi-se dissipando e só volta de vez em quando.
E voltei a sonhar sem comprimidos.

Ontem sonhei com o meu avô. Às vezes, ele vem visitar-me nos sonhos como que para me matar as saudades. Chega devagarinho e toma conta da história. Faz com que eu queira estar apenas na sua companhia como se, no sonho, eu saiba que ele vá…

Macacos do Nariz

O J. voltou a perguntar qual era o verdadeiro nome dos macacos do nariz e, uma vez mais, não lhe soubemos responder.
O pai tentou: -Detritos nasais!
Eu tentei: -Fluídos nasais secos!
As nossas tentativas não satisfizeram nenhum de nós três ...  O J. diz: -Temos que perguntar à Drª, como ela é médica deve saber ...
Fiquei a pensar onde poderia encontrar a resposta a esta questão sem ter que perguntar à médica ... 
Consultei a enciclopédia, o dicionário, procurei na net e ... nada, nem a mais pequena referência à designação científica para macacos do nariz ...

Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que os macacos do nariz tinham outro nome ...

As coisas em que este miúdo me põe a pensar ...

Este blogue vai descansar uns diazinhos, mas volta, com a maior brevidade possível!


O Desprezo É A Melhor Arma

Não sou pessoa de dar desprezo a ninguém. Gosto de discutir, trocar ideias e pontos de vista e, por fim, de chegar a um consenso. Resolver a questão, arrumá-la ou atirá-la para trás das costas, porque a conversa nos iluminou os pensamentos difusos. Mas há pessoas, com as quais isso não é possível. Facto este, que me chateia particularmente... Gostava de conseguir esclarecer assuntos que acabam por ficar no ar e que geram mal-entendidos. Mas nem sempre consigo. Muitas vezes, não consigo. Ou porque a outra parte não está para aí virada, ou, pura e simplesmente, porque a única coisa que está disposta a ouvir é a sua própria voz. Tenho que admitir que, nestes casos, a melhor arma é o desprezo. Se o principal objectivo do nosso interlocutor é magoar-nos, enxovalhar-nos ou obrigar-nos a admitir que a razão nunca o abandona, não há matéria para discussão, nem vontade... Resta, apenas, o desperdício do nosso latim, atirado, com força, contra uma parede maciça, que acaba por o fazer evaporar …

Marcadores #6

- A Gabrielle é inocente, podes acreditar! Quando a conheceres vais ter vontade de a defender, vais ver – Cármen estava exausta, por isso Ana resolveu fazer uma pausa na conversa para a mãe descansar. Levantou-se e dirigiu-se à cozinha para ir buscar um copo de água. Quando voltou, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e tirou várias qualidades de comprimidos. Olhou para o papelinho que os acompanhava que descrevia as quantidades e horários e começou a separar os que pertenciam àquela hora. Juntou seis que Cármen teria de deglutir uns atrás dos outros. Passou-os um a um, para a mão da mãe, que os tentou empurrar garganta abaixo com a ajuda de doridos golos de água.             Cármen quebrou o silêncio para dizer que guardava cartas trocadas com Gabrielle no tempo em que a amiga trabalhou na Alemanha e que gostava que a filha as lesse. Era uma forma de conhecer Gabrielle, explicou. Apontou para uma caixinha de madeira que se encontrava sobre a cómoda debaixo da janela que continh…

Ler e escrever

Há uma candura e uma vontade de regressar à infância de quem lê e escreve. Ler, e escrever, vai para lá do que é o real. Leva-nos para um mundo imaginário, conduzido por quem escreve, mas só nosso, tão pessoal. Talvez por isso, ler e escrever sejam estreitos encontros com a solidão...

Quando se lê um livro, mergulha-se numa dimensão à parte. Trilha-se um caminho de ficção e trilha-se outro que só existe no nosso interior. Percorrem-se as dúvidas e as certezas, os sonhos e a realidade, como se fossem sempre tão próximos. Parte-se da fantasia para a existência, sem nunca se sair completamente de dentro de nós.
Ler, e escrever, é uma viagem ao tempo em que a imaginação nos comandava as emoções. É explorar o quarto escuro que nos apavorava ou os jardins que nos deslumbravam. É ir, e não voltar, aos lugares onde nos sentíamos sós e incompletos, mas ao mesmo tempo cheios de desconhecimento, inocência e ilusão.
Ler, e escrever, é um exercício egoísta, em que não cabe lá mais ninguém para além d…